segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O lado negro dos “doentes”


Refiro muitas vezes aqui as coisas boas e engraçadas que os meus doentes me proporcionam diariamente. É parte do que me faz adorar o que faço.
Porém, apesar de generalizar ao reconhecer nos doentes pessoas fragilizadas e agradecidas, a verdade é que existe um outro lado. Um lado de má educação, de ameaças verbais e físicas, de autênticos casos de polícia, que nos fazem a nós, profissionais de saúde, ter de lidar com situações com as quais não teríamos de lidar. Situações essas que alteram completamente o nosso processo de trabalho, que desviam a nossa atenção (e energia) para algo secundário (ou nem isso) e que levam a que quem precisa mesmo dos nossos cuidados fique sem eles atempadamente.
Ainda me disseram há dias “O cliente tem sempre razão!” Que razão poderá ter alguém que nos trata abaixo de cão ou que nos aponta uma faca, muitas vezes porque não cedemos a caprichos e outras porque apenas cumprimos as normas de serviço? Sim, que todos os doentes têm direitos, mas na folha onde eles estão têm ao lado algo que diz “deveres”. Ao contrário da nossa (na opinião dessas pessoas), que parece ter escrito “deveres”, mas tem ausência de direitos.
E do que vejo, a maior parte destas pessoas são aquelas que menos precisam dos nossos cuidados. Mas cujas necessidades creem estar acima de tudo e todos.
E estes comportamentos, dignos de denúncia na polícia (se na rua também o são, numa instituição não serão mais?), alteram não só a dinâmica de serviço como também o nosso estado anímico. Porque ninguém gosta de ir trabalhar sabendo que já o espera algo desagradável. Por saber que em cada situação de ameaça física há um risco enorme de ter o meu emprego em causa, simplesmente por não saber o ponto até onde me posso conter. Nem eu nem nenhum colega meu o podemos garantir. Porque defender-me de uma agressão é um direito, seja onde for. Mas sei que se o faço, quem vai passar um mau bocado sou eu.
Claro que depois saltam para as notícias as falsas notícias, como a da suposta senhora com cancro que foi dormir para as escadas da igreja, porque a tinham mandado embora do hospital (foi alta voluntária). E os maus somos nós. Os que fazemos de tudo para essas pessoas não terem problemas com a justiça, que calamos muitas vezes, que escondemos as marcas físicas e psicológicas, baseados na falsa ideologia do “São doentes!”. Mas não o são.

Repito, o que é crime fora dum hospital, também o é dentro dele.

domingo, 11 de janeiro de 2015

A inteligência e o humor


Muito se tem discutido sobre os limites que se deve impor aos humoristas na sua sátira e crítica social, após o cobarde acontecimento de França.
Considero-me uma pessoa com sentido de humor apurado, mas acho que pessoas como os cartoonistas, cujo trabalho vemos diariamente, estão num patamar de genialidade. Só como exemplo, quando leio um dos três diários desportivos, a primeira coisa que faço é ir ver o cartoon da última página (ok, excepto no Ojogo!), independentemente da tendência clubística de cada jornal.
Para mim, só os génios conseguem, numa pequena imagem, colocar e criticar socialmente temas deveras complexos. E depois, cabe ao leitor, ter inteligência ou não para encaixar o “gozo”.
E aqui reside o grande problema da grande maioria, senão mesmo de toda a gente. O dito “gozo” é sempre altamente quando toca falar dos outros, quando toca a falar de nós (ou dos nossos gostos ou crenças), o humorista passa de bestial a besta! Sabem o fácil que é ver “o mal” nas coisas, quando realmente o queremos ver? Mesmo que seja um elogio!
Apraz-me ver a enorme onda de solidariedade, mas amedronta-me ver pessoas dizer “eles tiveram o que pediram!” ou “estivessem calados e não lhes acontecia nada!”. Se chegarmos ao ponde de um dia andarmos na rua ofende certas pessoas, deixámos simplesmente de sair à rua, porque senão estamos a fazer os possíveis para levar um balázio na testa!
Não vou entrar aqui no tema liberdade de expressão (cada um terá a sua opinião), só espero que, aqueles que tanto apelam ao controlo do uso dela, se lembrem do que andam agora a dizer no dia em que contarem anedotas de alentejanos ou de loiras, no dia em que gozarem com o clube rival ou no dia em que chamarem nomes aos políticos! Ou quando contarem aquelas anedotas de “Estava um Inglês, um francês e um português…” em que os nossos revelam sempre uma astúcia elevada em relação aos mentecaptos dos estrangeiros (pena a realidade dizer o contrário).
Ouvi dizer que o caso de França foi demasiado extrapolado, quando ainda há pouco houve um atentado em África que vitimou mais gente, mas que por serem pretos não interessavam. Não tem muito sentido dizer isto. O caso foi mediático, porque foi um atentado macabro efectuado no coração da Europa civilizada, onde as pessoas pensam viver longe deste tipo de perigos.
Acho piada também ao facto de um europeu que vá para um país árabe tem que se adaptar às leis e cultura desse país e eles vêm para aqui e são reis e senhores! Ok, daqui a pouco vão dizer que sou racista ou xenófobo ou que não respeito outras culturas. Eu respeito, não posso é aceitar que coisas que são crime na minha cultura e que lá não são, como parece que é o anda a fazer muita gente. “São muçulmanos, deixem-nos estar, casem as vezes que quiserem, com menores e idade, batam nas mulheres etc!”
A lei tem que ser cumprida, seja ateu, cristão, muçulmano ou shaolin! Assim como o humor não pode discriminar…seja pretos, paneleiros, brancos, heteros, loiras, alentejanos, muçulmanos, cristãos. No dia em que se fizer humor com condicionantes em relação a qualquer um dos itens que referi, será o dia em que o humor será discriminatório.

Por exemplo, no dia em que o humor deixe de dizer “preto” ou “paneleiro” com medo de ofender as pessoas de raça negra e os homossexuais, será o dia em que o humor se tornará racista e homófobo!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Modelo biopsicossocial, ser ou não ser…

Terça-feira, volto à escola (universidade) para assistir a uma mesa redonda, a convite duma das pessoas que mais consideração me merece naquele espaço.
Dois interlocutores, duas abordagens interessantíssimas e pertinentes dum problema (ou será mais realidade? Ou as duas?) que assola, a meu ver, não só os enfermeiros, mas todos os profissionais de saúde…e não só.
Abordaram-se duas situações distintas, mas que orientaram a sessão para a mesma questão, a carência na assistência a nível social e cultural dos profissionais de saúde aos pacientes, quer sejam estrangeiros ou não.
Para mim este é um problema que tem como base dois modelos, o modelo biomédico e o modelo biopsicossocial, ou melhor, a passagem de um para o outro.
Antes de iniciar a expor a minha visão sobre o assunto, gostaria de reiterar a minha firme oposição à eterna pseudo-guerra médicos/enfermeiros. Olho para eles como colegas de trabalho e se algum deles não me olha da mesma maneira, não é algo que me preocupa e se algum dia tiver problemas com um deles, resolvo-o na hora e com a pessoa em causa, e não faço disso uma bandeira pró-enfermagem. E a questão que vou abordar não me parece que seja um problema deles seguirem um modelo e nós outro, mas sim do modelo que, a meu ver, o sistema de saúde português (e não só) segue, levando de arrasto os seus profissionais.
A nível da formação, a mim já me foi ensinado o modelo biopsicossocial (há uns 12 anos) e segundo me foi dito, neste momento medicina envereda pelo mesmo caminho. Serve isto para mudar o paradigma dominante? Para se passar definitivamente do modelo instaurado há décadas, para o modelo mais recente e que é consensual no que toca a abranger as necessidades totais do paciente?
Não, não chega. Porque não chega brandir aos sete ventos que vemos o doente de uma maneira holística e os outros não (nós é que somos bons!), numa atitude um pouco arrogante da nossa parte. Como não vai chegar daqui a uns tempos os médicos dizerem o mesmo. Mais que ver o doente de uma maneira holística, devemos tratá-lo e cuidá-lo nesse sentido.
Também podemos dizer que temos essas vertentes em atenção nos cuidados que prestámos, mas só sabemos se aplicámos essa visão biopsicossocial realmente quando nos deparámos com situações que nos obrigam a mudar o nosso processo (a palavra rotina dá muito prurido a certas pessoas) de trabalho. Até lá, é fácil dizer que usámos este modelo. Quando os nossos pacientes respondem a um padrão de cultura, que além de ser similar entre eles, é idêntico ao nosso. Quando fogem a esse padrão, aí a coisa complica. Nem nós, nem em último caso os serviços, estão preparados para atender de uma maneira holística todos os doentes. E por muito que nos custe admitir ou não o queiramos ver, é fácil arranjar múltiplos casos em que isso não acontece. Basta olharmos para o nosso terreno e sermos honestos connosco.
Agora é preciso um olhar mais profundo para se determinarem as causas deste fracasso.
A pergunta que eu faço é: Estão reunidas as condições para passarmos a um modelo que, além de abarcar tudo o que o outro tinha, exige ainda mais (conhecimento, concentração, dedicação, tempo etc.) aos profissionais de saúde?
Aceito, compreendo e defendo o papel das universidades…ensinarem a utopia, a perfeição, que devemos exigir a nós mesmos, e exigi-las aos alunos. Pois as mudanças, na minha opinião, começam sempre nas escolas.
Compreendo que digam que “não há tempo” ou que “não há recursos humanos suficientes” são desculpas para se enveredar por um caminho de facilitismo. Compreendo, mas não aceito, pois acho que são visões pouco realistas e holísticas do trabalho de um enfermeiro (ou profissional de saúde). É preciso ter em conta todo o contexto social do doente, certo? E o contexto social e profissional de quem cuida dos doentes? Não somos nós também pessoas?
Aceito perfeitamente a crítica à perda da identidade do paciente, por exemplo, com expressões do tipo “doente da cama x”, mas esta perda não acontece apenas na enfermagem. Em qualquer balcão somos números à espera de ser atendidos e passamos anos na universidade a sermos rostos sem nomes para muitos dos professores, só como exemplos.
Voltando à questão que coloquei, acho que temos sistemas que eles próprios impedem a mudança de paradigma. Seja pela situação socioeconómica que atravessámos (que está a afetar gravemente o SNS), seja pelas chefias e as suas exigências ou até mesmo pelas próprias exigências dos doentes, e até direi por parte de alguns profissionais de saúde. Mas eu sou testemunha que a falta de tempo não é uma desculpa e tem uma causa…falta matéria humana, faltam mais olhos, mais ouvidos e mais mãos para podermos ver (ouvir e tocar) os doentes de uma forma verdadeiramente holística!

Não é desculpa, não é facilitismo, não é não querer…é isso sim, querer e não poder!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Domingo Galego

Domingo à tarde, demasiado bom tempo para ficar metido em casa. Saio, vou dar uma volta e acabo a lanchar no local onde fazem os melhores croissants da zona.
Aproveito para ler as notícias do dia, no jornal local. Fico a saber que Pontevedra cumpre os requisitos da OMS no que toca a espaços verdes na cidade. 24 metros (não sei se quadrados) por cada habitante. Curioso, não sabia que havia requisitos desta entidade a este respeito, mas não me surpreende que Pontevedra os cumpra. É das primeiras coisas que falo sobre esta cidade a quem não a conhece, a quantidade assinalável de espaços verdes e de parques que os habitantes têm para os seus passeios.
Deparo-me com outra curiosa notícia, mas lamentável a ser verdade. Digo isto porque desconheço a realidade em causa. No jornal local da cidade espanhola onde trabalho, diz uma notícia que empresas em Portugal descriminam os seus trabalhadores se estes tiverem alguma relação sentimental com outro colega. Sempre defendi que o que deve ser valorizado na hora de manter um trabalhador é o seu trabalho e profissionalismo. Se é profissional saberá separar o trabalho da vida privada, logo esta atitude (a ser verdade) revela apenas o amadorismo empresarial que ainda se vive em Portugal.
De seguida aproveito e vou ver o Valência-Real Madrid. Do Real não vou falar de Cristiano. Falarei dele daqui a uns dias quando ganhar a Bola de Ouro. Realço Pepe, de defesa impetuoso (caceteiro), está feito um central de requinte (mesmo que medicado, segundo suspeita um amigo meu). Para mim, o melhor do mundo actualmente (mesmo com o azar do jogo de hoje). Poucas faltas (hoje marcaram uma ou outra que para mim foram erros de arbitragem), limpeza nos cortes e uma qualidade a sair com a bola rara de se ver. O Sérgio Ramos ao lado dele até parece muito bom!
Do outro lado o Valência, equipa de Nuno e de outros senhores nossos conhecidos. Sigo sem saber qual a qualidade de Nuno. Ganharam hoje, é certo, merecido, mas encontraram um Real Madrid em dia não.
Enzo Pérez…antes de falar dele, quero realçar que é daqueles jogadores que ficarão na minha memória pela maneira honrada como vestiram a camisola do meu Benfica. Saiu por 25 milhões. Sou sincero, para o Benfica valia uns 45 ou 50. Para o Valença ou outra equipa não podia valer mais de 15. É daqueles jogadores que encontram num clube o seu espaço, o seu palco. Faz-me lembrar (salvo as devidas diferenças) o Maniche. Grande jogador no Porto e na selecção, perdido nas outras equipas por onde passou. Do Enzo apenas sei a primeira parte do que referi, espero que não se repita a segunda. Gosto dele, é dos meus. E não me venham, com o amor à camisola. É o futebol que temos, contos de fadas não fazem parte dele.
André Gomes…saiu por 15 milhões, para o Benfica valia uns 10, para o Valência vale 30, 40 ou 50! O melhor em campo. Classe, visão, risco, dono do jogo. Está a fazer-se um senhor jogador e o Valência será pequeno para ele, por muitos milhões que invistam!

No fim, o melhor do jogo, as cañas e as patatas bravas…uma delícia!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Novo Ano...

Para mim a passagem de ano teve um cheiro a Natal, compensou o que não tive há uma semana. Calor da família e dos amigos.
Ter o meu afilhado a correr pela casa, a ser a alegria da casa, foi a melhor prenda natalícia atrasada que podia ter tido.
Ter uma saída com as minhas queridas primas para um evento que ficou aquém do esperado, mas que permitiu ver e rever pessoas que não via há muito.
Ter um café com amigos ou ir simplesmente dar um abraço de um bom ano a um amigo que já não via há uns meses.

Foram dois dias preenchidos, junto a quem mais prezo…mas o momento alto foi estar com o pequeno sentado no meu colo, em frente ao pc, a ver um filme do Pateta e do Pato (Donald)…sem saber quem estava a gostar mais do que via.