terça-feira, 18 de julho de 2017

Um ano intenso

Termina agora o meu segundo ano como instrutor de Karate, mais um ano de grande aprendizagem, de muito trabalho e enorme satisfação.
Destaco, logo em primeiro lugar, o crescimento relativamente ao número de alunos. Pode-se dizer que o Karate está na moda, cabe-nos a nós, atores principais desta arte, fazer que esta afluência atual se mantenha e que, mais importante, fazer com que quem venha fique.
Posso dizer que a turma deste ano exigiu muito de mim, com muitos avanços e recuos, com algumas frustrações por não ver os resultados pretendidos no tempo esperado. Foram muitos os treinos em que verificava que o que parecia assimilado afinal não o estava ou treinos em que finalmente se portavam todos bem e no seguinte voltava tudo à estaca zero.
Foram vários os momentos de reflexão e estudo sobre quais as estratégias usadas e a usar. Sempre fiel aos meus princípios (e aos da nossa escola) naquilo que considero que deve ser um formador de crianças. Sempre exigente no princípio mais básico que deve orientar uma sociedade…o respeito pelos outros.
Foi um ano em que os pequeninos do ano passado continuaram a sua evolução, com um crescimento a todos os níveis notável, sendo um exemplo para os que acabam de chegar.
Também foi um ano intenso para os nossos competidores, com um objetivo bem definido. Deram no duro, sacrificaram-se, tiveram dúvidas, choraram com as dores, com os contratempos, mas nunca viraram a cara à luta. Foram grandes Karatecas. E os resultados foram aparecendo, fruto de todo o trabalho desenvolvido. A alegria deles foi a alegria de quem os viu crescer ao longo do ano.
Claro que todas as dificuldades foram atenuadas por ter ao meu lado duas pessoas que contribuem diariamente para o meu crescimento enquanto formador de crianças e karateca. Tudo se torna mais simples quando temos pessoas que comungam connosco a mesma filosofia, os mesmos princípios e os mesmos objetivos.
Foi mais um ano a comprovar que o objetivo primordial do Karate não é formar campeões de medalhas ao peito. É fantástico ver pequenos guerreiros a ultrapassarem as suas dificuldades, a tornarem mais fácil o que antes era impossível. Neste final de época, sou alguém que acredita plenamente que todos os miúdos têm alguma coisa a ganhar com o Karate. Certeza tenho que quando alguém pensar em desistir, eu não desistirei dele. No dia em que desistir de um aluno, será o dia em que irei pendurar o kimono e dar lugar a outro.

A todos umas ótimas férias…espero-vos em Setembro. OSS!



terça-feira, 11 de julho de 2017

Duas pequenas heroínas

Ontem desloquei-me para mais um treino, mais um treino a promover a arte a jovens desconhecidos, inserido no programa de férias desportivas. Algo que me tem chamado muito a atenção nestes treinos, é o incrível interesse que as crianças têm pelo Karate, pelo treino em si e a disciplina que apresentam.
Falamos de crianças dos 6 aos 12 anos, crianças que nunca tinham contactado com o Karate e que assimilam rapidamente os passos iniciais desta arte…saudação, respeito pelo Sensei e pelos colegas, entrega ao treino etc. Quando assim é, dá real gosto dar um treino, não cansa e o tempo passa a voar. Fazem corar de vergonha muitas crianças já crescidinhas, que não sabem estar e, sinceramente, para as quais cada vez tenho menos paciência.
Ao alinhar as crianças verifiquei que uma delas era portadora de Síndrome de Down. Nunca tal me tinha sucedido, mas não fiquei intranquilo. Um defeito meu, que vou aprimorando nesta minha curta vivência como treinador, é acreditar que posso tirar sempre alguma coisa de todas as crianças, tenham elas os problemas que tiverem. Por isso iniciei o treino ansioso por ver a resposta que a menina me ia dar. Fez o treino todo sem se notar qualquer diferença para os colegas, até executando muito melhor do que outros.
Ao iniciar o treino, reparei também que uma aluna estava sentada, sem fazer o treino, por indicação de uma responsável por eles. Não sabia o motivo, mas é normal haver sempre algum doente, logo não dei importância. Com o decorrer dos exercícios, a menina levanta-se e começa a correr e a repetir os movimentos que eu fazia. Uma corrida desequilibrada…um esboço dos movimentos. Uma voz muda, mas um olhar que tudo dizia. Percebi que era uma aluna com alguma coisa parecida a paralisia cerebral.
Uma colega dela, rapidamente e preocupada disse-me “Ela não pode treinar!” Perguntei o porquê e a resposta foi “É deficiente”. Tranquilizei a rapariga e disse-lhe que era eu a dar o treino e que, enquanto assim fosse, ela ia treinar. Como podia eu negar o treino à pessoa que mais interessada nele estava?

Foi, talvez, dos treinos em que mais aprendi. São estas alturas que me ensinam a relativizar, a relativizar os meus “problemas” ou a relativizar a importância que damos às coisas sem valor. Aquelas duas meninas são, para mim, um exemplo de querer e de superação, são minhas heroínas.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Vida em suspenso

Lembro-me, como se fosse hoje, do preciso momento em que decidi que ia emigrar. Por muito que se diga que se está na disposição de emigrar, nunca o temos tão presente como o instante em que nos dizem “começas dia x”.
Nesse dia, a fazer nos próximos dias nove anos, mais um dia num trabalho que gostava, mas que não era o meu, recebi a tal chamada do país vizinho. Não havia muito que escolher, não havia muito que pensar. Havia, isso sim, um sonho por cumprir, que ao mesmo tempo era a maior das minhas dúvidas…será que nasci para ser enfermeiro? Por isso, não houve hesitação na hora de aceder ao chamamento, o que não significa que não houvesse medo, insegurança e as tais dúvidas.
Sei que fui para relativamente perto, antes que digam que fui um emigrante de vida fácil. Sim, Pontevedra é aqui ao lado, Espanha é o país nuestro hermano, dizem que a língua é fácil etc. A minha opinião é que fácil é quando vamos como turistas e que a língua se parecer muito à nossa foi mais entrave que facilitador. Sabem quando se fala que nós percebemos tudo o que eles dizem, mas eles não nos percebem? Anda muito longe de ser mito. Agora imaginem não nos conseguirmos fazer entender no local do trabalho, quando o relacionamento humano é fundamental, ou numa qualquer repartição pública, como finanças ou segurança social (ir lá em Portugal já é um bicho de sete cabeças).
Nessa linda Pontevedra, cresci como enfermeiro e como homem. As dificuldades que senti no início foram desaparecendo, devagar, mas cada vez menores. O local de trabalho deixou de parecer uma casa assombrada passando a ser uma segunda casa, a cidade passou a ser a minha cidade.
Tive momentos felizes nos sete anos em que estive fora do país, mas não posso dizer que o era realmente. No momento em que decidi ir para lá foi o momento em que suspendi a minha vida, de sonhos e de projetos.
Nunca escondi o desejo de voltar ao meu país, sabia que haveria coisas que o podiam impedir, logo pus de parte os meus sonhos mais íntimos. Quando me meto em algo, meto-me a cem por cento, logo o viver num limbo entre dois sítios (Fafe e Pontevedra) foi sempre impeditivo para assumir outras coisas. Num trabalhava, noutro matava as saudades da família e do que me fazia falta.
Sei que isto é uma maneira muito minha de ver a vida, não um perfil linear a todos os que emigram.
Foi há quase dois anos que a minha vida recomeçou a fluir. Voltei a sorrir dentro de mim, permiti-me projetar e sonhar novamente. Não sendo a vida uma permanente felicidade, não deve ser uma constante resignação. Vivo feliz, aqui no cantinho que me viu nascer e crescer, procurando ajudar a sociedade na qual me insiro com o meu grãozinho de areia.

Permitam-me responder à pergunta que fiz no início deste meu devaneio, não, não nasci para ser enfermeiro. Simplesmente adoro o que faço e ser enfermeiro vai muito além das paredes do serviço onde trabalho, permanece em mim mesmo depois de despir a farda. E isto…devo à oportunidade que me deram, há quase nove anos, do lado de lá da fronteira.


sábado, 10 de junho de 2017

A única resposta que te posso dar

Simplesmente não estou em mim, ainda estou a assimilar o inesperado. O dia foi longo, mais um, começou bem cedo e terminou noite dentro.
O melhor da vida são a família e os amigos, tenho essa certeza há muito tempo, logo não podia ter pedido melhor, um dia passado na companhia dessas amizades que nos tornam as pessoas mais ricas do mundo.
Hoje não estou exausto, não poderia estar. Como se costuma dizer, estou com os sentimentos à flor da pele. Reuni os amigos para celebrar o meu aniversário. Não todos, nem todos conseguiram vir, sabendo que estiveram comigo em pensamento. Chegará o dia em que os terei todos juntos, naquele que será o dia perfeito.
Sou sincero ao dizer que a melhor prenda que posso ter nos anos é a presença das pessoas que mais quero. E foi isso que todos vocês foram…mas peço-vos desculpa se vos digo que fui prendado com a mais bela e inesperada das prendas.
Foi, talvez em toda a minha vida, a maior surpresa que tive. Não digo que me enganaram, tem uma conotação negativa nada apropriada à situação. Talvez tenham disfarçado, mas nunca esperei por aquilo que aconteceu. Ter recebido o teu retrato já seria prenda mais que suficiente, ter lido o cartão que a tua irmã me deu…bem, provavelmente nunca tive uma reação tão espontânea, tão sincera e tão transparente. A pergunta nele contida apenas exigia uma de duas respostas…sim ou não.
Por momentos fiquei mudo, com um daqueles nós na garganta que não nos deixam sequer falar. Eu queria falar, queria muito, mas se o fizesse creio que o que estava a tentar conter se desmoronaria. A muito custo contive-me, contive as lágrimas que teimosamente queriam sair dos meus olhos. Por momentos fiquei com a visão turva, com o pensamento desnorteado. Respirei fundo, olhei para os olhos ansiosos da tua irmã, para a perplexidade com que ela assistia à minha própria perplexidade, esperando uma resposta.
Contudo não havia muito que duvidar, muito menos depois da minha reação mais que visível…sim, sem dúvida alguma um grande sim.





quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cai a noite...

Chega a noite, sento-me finalmente no sofá, estico as pernas e dou um longo suspiro. Sinto-me cansado, exausto para ser mais específico, o dia começou na véspera pelas doze horas, termina passadas trinta e seis horas. A sério, já não tenho idade para estas coisas!
Termino agora de agradecer a todas a felicitações que me foram endereçadas durante todo o dia. Espero não ter falhado nenhuma, é importante para mim retribuir um pouco do que me deram.
Por fim, posso respirar um pouco, fechar os olhos e percorrer mentalmente o meu dia de anos. Um dia em que me foi permitido estar com aqueles que me acompanham diariamente e sentir o apreço dos que estão longe.
Primeiro no trabalho. Já o disse várias vezes, aqui, que o carinho que os doentes nos dão sabe bem ao ego, mas antes disso está o carinho que os nossos colegas nos dão. Por vezes não é fácil, por vezes há confrontos de ideias ou ideologias ou o cansaço ou stresse acumulados, mas no fim ficam as atitudes de companheirismo. E hoje senti-me “abraçado” por todos os que me acompanham no local de trabalho.
De seguida no Karate. A casa que já me viu cumprir muitos aniversários, que me acolheu ainda criança e me fez o homem que sou hoje. E o que sinto dentro daquelas paredes, dentro do Dojo, não se explica. A afeição que se cria entre todos não tem equivalente em nada que eu conheça e não poderia fazer anos sem estar com a minha gente, com a família que eu escolhi.
Jantar com as duas pessoas mais importantes, os meus pais. A família onde nasci e cresci. Que me educou sobre firmes valores, a quem agradeço tudo o que sou hoje em dia. Apesar de vivermos sob o mesmo teto, estarmos os três sentados ao mesmo tempo à mesa é algo mais ocasional do que se possa pensar.
Pelo meio, um daqueles cafés com uma daquelas pessoas para quem sempre temos um pouco de tempo. Soube-me bem estar com um desses amigos, para quem a distância é um pormenor e não um problema.
Terminei o dia com os meus amigos diários. Aqueles que no último ano se tornaram pedra basilar da minha existência, que me acompanharam nos bons e maus momentos, que me aconselharam, que me fizeram rir e sorrir.
Agora uma palavra para aqueles com quem não estive, aqueles que de serem tão fantásticos, conseguem ser os meus alicerces mesmo estando a dezenas ou centenas de quilómetros. Eles sabem quem são, sabem que a palavra “amigo(a)” é demasiado curta para expressar o que eles me dizem.
Acabo o dia exausto, mas de coração cheio. Muitas das mensagens ou telefonemas recebidos fizeram-me tremer por dentro. Não sei se sou isso tudo o que disseram. Sei, isso sim, que o que eu sou é graças a todos vós que me acompanhais…sou apenas um reflexo de tudo o que me dão e são.

Sei que é pouco, mas é sincero…obrigado. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Amor à primeira vista

Olá “I”!
Sabes, acabei de te conhecer e tive que pegar na “pena”, tal é o remoinho de sentimentos que me fizeste sentir uns minutos atrás. Tenho que escrever, tenho que soltar tudo o que vai aqui, senão sei que não vou pregar olho.
Foi há alguns anos, muitos para os meus quase trinta e três, que peguei pela última vez em alguém tão pequeno. Na altura com um à vontade que a prática me estava a dar. Porém o tempo passou, a prática também.
Hoje, quando me foste entregue nos braços, tremi…tremi por dentro, os meus braços por um segundo desfaleceram, mas rapidamente despertaram deste inebriante torpor. Tinham que ser fortes, fortes o suficiente para te transmitir segurança, para serem berço confortável. A medo acolhi-te no meu colo, medo da encantadora delicadeza do teu pequeno corpo.
Depois veio o resto…senti a ternura do teu calor. Senti a fragilidade dos teus dedos. Senti a doçura do teu rosto. Senti a tranquilidade da tua respiração. Não tenho dúvida, foi amor que senti, amor à primeira vista.
És uma pequena princesa, uma linda e querida princesa, tenho a certeza que irás continuar a cativar todos à tua volta.
Obrigado “I”, obrigado pela paz que me transmitiste. Hoje vou sereno para o mundo dos sonhos.
Beijinho,

Jorge

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os lugares da minha vida

Nos últimos dias estive de férias na cidade de Valência, sul de Espanha. O maior elogio que posso fazer à cidade é que era capaz de me ver a viver lá. Cidade grande, mas tranquila, com um centro histórico acolhedor e lindíssimo. Com dois ex-líbris a não perder, a Cidade das Artes e Ciência e o Bioparc. Admito que surpreendeu-me mais este último.
De resto, mais uma cidade em que se vive Espanha em todo o seu esplendor…ruas movimentadas a toda a hora, principalmente após as 16 horas. Esplanadas cheias em dias da semana. Tapas (como as adoro), as cañas ou um bom rioja. Praias até perder de vista, esplanadas à beira mar relaxantes com música a animar.
Ao voltar a viver isto tudo reparei nas saudades que sentia disto, de pequenas coisas que os sete anos e pouco que estive nesse país me proporcionaram. Lembro-me de sair de fazer noite e ir descansar para a praia. Lembro-me do “ir de tapas” com os amigos, com mesas faustas com os mais variados tipos de comidas, deliciarmo-nos nas esplanadas durante umas 3 horas a comer e a beber. Lembro-me de ter vários cafés onde ir, cada qual com as suas características e e decorações singulares. Apenas não sinto saudade da música espanhola porque essa segue a ser presença assídua no youtube ou no carro. Posto isto, sem dúvida que Pontevedra será sempre um dos meus locais, aquela cidade que sempre que lá vá posso dizer “sinto-me em casa.
Nos anos que passei em Espanha, senti sempre vontade de dar um salto àquela que foi a minha segunda casa…Viana do Castelo. Porquê? Porque sentia falta de passear no centro histórico ou na marginal junto ao rio. Sentia falta de ir ao meu shopping (apenas abriu no meu segundo ano em Viana e transformou a cidade). Sentia falta das bolas de Berlim do Natário ou dos croissants com creme da Caravela. Sentia falta de passear na Praia Norte, de tomar lá um café ou de almoçar no Scala…talvez o restaurante, sem ser chic, onde me sinto mais à vontade, com um espaço bastante agradável e grande variedade de pratos. Sentia falta da minha ESENFVC, o local que me deu as bases para ser o enfermeiro que sou hoje e onde conheci e criei amizades para a vida. Sem dúvida que Viana será sempre um dos meus lugares de eleição, onde quando chego posso dizer “cheira-me a casa”.
Contudo, há um lugar que, estando em Viana ou em Pontevedra, sempre me atraiu de volta, como um íman que prende o metal. Fafe, a terra que me viu nascer e crescer, a terra que me viu abalar dela para estudar e mais tarde trabalhar. Admito que gosto de Fafe porque sou daqui. Apesar de achar que é um sítio agradável, não me custa admitir que possa ser difícil para muita gente ter que vir viver para cá. As cidades muito pequenas são aprazíveis, quase sempre, para quem é originário da terra. Além de ser a minha origem, tenho família (o bem do qual mais falta sentimos quando não temos por perto), tenho grandes amizades, das mais antigas às mais recentes (como é ótimo desfrutá-las diariamente), tenho a casa onde trabalho (e onde me sinto em casa) e tenho a minha segunda família, o Karate. Quando disse a alguém que me via a viver em Valência essa pessoa disse-me “E porque não ficas?” A minha resposta sem pensar foi “E os “meus” meninos do Karate?”

São três os lugares que me fazem sentir em casa, mas apenas um é a minha casa…Fafe. Por isso, posso ir passar uns dias seja a onde for, dentro ou fora do país, mas com a firme certeza de ter viagem de volta.





terça-feira, 25 de abril de 2017

Uma responsabilidade chamada “Liberdade”

Comemoram-se hoje os 43 anos do 25 de Abril de 1974, a inesquecível Revolução dos Cravos. Um movimento que devolveu a liberdade a um povo que vivia esganado pelas mãos de ferro dum regime tirano.
Passado tanto tempo olhamos para trás e para o ponto onde estamos e só podemos admitir que alguma coisa falhou. É verdade que vivemos livres. É verdade que, apesar de crises e mais crises, as condições de vida são muito melhores hoje em dia. É verdade que estamos melhor que na ditadura, antes que alguém me venha dizer que não sei do que falo…e seria verdade, pois não vivi na ditadura.
Mas o ponto é mesmo este, daqui a alguns anos, haverá pouca gente que tenha pertencido a essa era. Não haverá quem nos diga “Vá, não sabes o que dizes, o que nós passamos na ditadura era muito pior!” Por isso, mais que dizer o mau que era viver antes, a preocupação deveria de ser a de transmitir valores, princípios e ideais que se prolonguem no tempo.
Podemos começar pela classe que nos governa, em que tudo vale para chegar às cadeiras do poder, cadeiras essas que dão direito a tudo menos a uma coisa…nunca há responsáveis por gestão danosa dum país. Sentam-se nelas de peito feito e a gritar ao mundo as suas qualidades, saem delas de fininho, esperando empregos (nunca trabalho) de ordenados insultuosos. Apesar de várias cores, a ideologia é a mesma neles todos, disfarçando-a com hipócritas eleições.
Porém, quem nos governa é a imagem da sociedade que somos. A falta de escrúpulos e de educação que se vê na política é a mesma que se vê diariamente. Seja no futebol, em que dizemos ser dum clube e odiamos os outros. Em que um adepto do clube adversário não pode entrar num estádio com adereços do seu clube (gritem agora, viva a Liberdade). No dia-a-dia, em que vemos constantemente selvagens ao volante, a vociferar contra tudo e contra todos, colocando vidas em risco. Em qualquer serviço, exigindo qualidade máxima quando somos clientes, reclamando de exigências absurdas quando somos os prestadores do serviço. Temos trabalhadores que se queixam do trabalho que têm, temos desempregados que adoram estar desempregados (viva a liberdade).
Temos uma sociedade cada vez mais respeitadora dos direitos dos outros, seja jovens ou adultos. Vê-se isso nas caixas dos hipermercados com grávidas quase em trabalho de parto a terem que ouvir bocas por usufruírem dum direito que lhes assiste. Direito esse que as meninas das caixas, muitas vezes a medo, é que fazem cumprir. Vê-se nos transportes públicos, em que vemos jovens cansados sentados e idosos fortes nos lugares em pé. Vê-se nas urgências, em que pessoas numa situação delicadíssima de pulseira verde insultam todo o mundo por uma pessoa de pulseira laranja entrar primeiro, após ter chegado depois delas. Vê-se isso nas salas de aula, que acolhem pequenos selvagens para os educar, mas como educar se em casa se mantém a selva? Vê-se na desculpabilização por parte dos pais em relação aos comportamentos repugnantes que os seus filhos têm. Seja como for…viva a liberdade.
Há uma desculpa para isto tudo…”os tempos mudaram”. Claro que mudaram e burro é quem não se adapta às mudanças. Contudo há uma coisa que não mudo, aquilo que acredito, os meus valores e, acima de tudo, o meu sentido de justiça.

Ter liberdade não é a mesma coisa que saber viver em liberdade. E essa foi a maior responsabilidade que o 25 de Abril nos trouxe e com a qual falhamos redondamente. Somos livres, mas eternamente prisioneiros da nossa irresponsabilidade…apesar de tudo, viva a liberdade!








quarta-feira, 22 de março de 2017

Parabéns Mãe

Foi em ti que eu existi
No teu ventre carregado
Até chegar o momento esperado
Em que para o mundo nasci.

Com enorme paciência
Foste esteio da minha educação
Fazendo de princípios e valores ciência
Guiados sempre pelo coração.

No teu colo aconchego
Nas tuas mãos segurança
Na tua voz carinho
No teu olhar amor.

Em ti tudo isso continuo a encontrar
Em ti tudo isso continuo a admirar
Em mim tudo isso transmito
Quando aos outros assisto.

És o exemplo inconsciente
Que me fez ser enfermeiro,
Agora ciente vejo
Esse meu jovem desejo.

Hoje o dia teu deve ser
Mas um dia apenas injusto seria!
Para tamanho merecer,
Nem todo o ano chegaria.

Desejo-te um feliz aniversário!
Beijinho,

Jorge

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Certo ou errado

Quem sou eu? Esta é, porventura, a pergunta mais traiçoeira que nos podem fazer quando procuram que a resposta seja dada por nós mesmos. Responder a esta pergunta construindo a resposta pelo modo como olhamos o mundo será o primeiro passo para enviesar a resposta. Vivemos a vida consoante o que achamos a maneira correta de a viver, sendo o certo ou errado fruto de todos valores que nos foram transmitidos e por nós absorvidos, fruto de todas as experiências pelas quais passamos e nos dão a nossa visão da realidade.
Por tudo isto, a linha que separa o certo do errado é, muitas vezes, difícil de observar ou de traçar. O que nos parece certo hoje, amanhã pode ser o que achamos errado. São as aprendizagens da vida e as reflexões que delas fazemos que permitem o flutuar dos comportamentos entre os dois pêndulos da balança.
E o que nós somos segue um pouco essa linha flutuante, somos seres inconstantes em contínua transformação. Porém, isso não significa que não tenhamos uma linha orientadora que nos guia no caminho da vida.
Sou resultado de todas as sensações sentidas, das imaginadas às vividas. Sou resultado de todas as decisões tomadas, das certas às erradas. Sou resultado (prisioneiro) dos meus valores. Eu sou resultado de todas experiências pelas quais passei, sabendo dessa forma que já errei, mas também que já acertei. Sei que os erros foram cometidos na certeza que não o eram, que segui sempre os princípios nos quais acredito.
Sei que não sou perfeito, andarei bem longe disso, mas defendo com firmeza o que acredito ser justo e quando falo em justo, falo no que o é para mim. Temos uma Justiça (falível) que existe para nos manter dentro das regras da sociedade. Contudo é o respeito, a bondade, a compreensão e a solidariedade que manifestamos nos gestos e atitudes que temos diariamente que nos permitem atingir uma justiça moral. E para mim essa tem ainda mais valor que a judicial. Porquê? É feita sem medos de represálias, porque está carregada de sinceridade e de um louvável carácter voluntário. É capaz de diluir comportamentos errados e fomentar aqueles que nos fazem ser mais tolerantes.
Por isso não devemos de esquecer, eu incluído, que para cada situação pode não haver apenas uma verdade. Nem tudo na vida é sim ou não, certo ou errado, logo devemos ter capacidade de procurar entender a visão dos outros, não tendo que concordar com ela, mas sendo importante a aquisição de novas perspectivas.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A dependência do elogio

Numa formação que estou a frequentar sobre comunicação, a certa altura, falou-se sobre o elogio, no sentido que devemos de elogiar os demais, sendo desse modo amáveis. Concordo em parte com isso, mas mais que falar sobre o elogiar os outros, vou escrever sobre a “dependência” atual que temos em sermos elogiados.
A meu ver existem dois tipos de elogios, aqueles que são dirigidos ao que somos, sendo mais específico, à nossa aparência, ao que todas as pessoas têm acesso, e aqueles que são feitos ao que fazemos, sendo de acesso apenas a quem nos vê a fazer ou das pessoas alvo do que fazemos.
Podendo ambos os tipos serem de análise subjetiva, considero que os primeiros são aqueles sobre os quais menos ação temos. Dando apenas um exemplo, uma pessoa ser ou não ser bonita pode depender do que ela faz para se pôr assim ou depender se já nasceu ou não com formas mais ou menos formosas, mas acima de tudo, depende dos olhos que a vêem.
Quanto ao segundo tipo de elogios, creio que, mantendo sempre alguma subjetividade (o que posso fazer pode ser bom para uns e mau para outros), temos maior poder de influência sobre eles.
Porém, seja de um tipo ou de outro, acredito que hoje se vive numa obsessão em ser-se elogiado. As pessoas acham que é um direito adquirido de nascença, talvez nuns resquícios do que fica de quando nascemos…”ai que bebé tão lindo”, mesmo que seja a criatura mais feia que há.
Uma pessoa aperalta-se, seja para que situação for, não para se sentir bem consigo mesma, mas na tentativa de ser uma alegre visão para os olhos dos outros. E se ninguém lhe diz nada? Se ninguém lhe gaba o corte de cabelo? O vestido ou a camisa nova? Os sapatos?
A mesma coisa se passa nas nossas ações do dia-a-dia, cada vez mais temos comportamentos para os outros verem que propriamente para nós sentirmos, contrariando o que tenho lido por aí que “carácter é quando fazemos o correto quando mais ninguém nos está a ver”. Assiste-se em todos os contextos da vida a pessoas (adultos ou crianças) que, pese o exagero, esperam o elogio ainda antes de terem feito o que for para o merecer.
Isto é um pouco consequência da sociedade em que vivemos, que vai habituando as pessoas a terem as coisas com facilidade e não por merecerem. Um trabalhador não deve esperar ser elogiado por fazer o que se espera dele ou um estudante por tirar boas notas ou alguém por fazer uma boa ação que, no fundo, é a socialmente esperada. Não digo que não se possa elogiar, quem achar que o tem que fazer, pode e deve fazê-lo. O problema aqui está no lado de quem espera o elogio.
Com tudo o que disse, deixo claro que não tenho nenhum problema em elogiar quando acho que o devo fazer, mas não o faço apenas por simpatia ou por alguém ter feito o que se esperava que tivesse feito. Aqui não confundir feedback positivo com elogio. Dizer que alguém está a fazer bem alguma coisa não tem que ser propriamente um elogio, mas antes uma orientação. O elogio deve ser dado quando uma pessoa faz mais do que se esperava que ela fizesse.
Cresci e fui educado assim e acho que ganhei muito com este tipo de pensamento. Aprendi a relativizar os elogios e as críticas, não vou às nuvens com os primeiros nem me sinto o pior do mundo com as segundas. Sei do perigo de soberbia que os primeiros acarretam e aproveito as segundas para crescer ou refletir no que faço. Todos temos obrigações e responsabilidades, assumi-los é o nosso dever.

Os elogios são como as palavras, quando demasiadamente repetidas perdem valor e sentido. Simplesmente, acho que podemos ser simpáticos sem forçarmos um elogio e podemos elogiar sem termos que ser simpáticos.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Crianças, como atuar?

Como é óbvio, não serei eu a dar resposta à pergunta do título, pois faltam-me capacidades para tal. Não sou expert da área, não sou educador ou professor, não trabalho com saúde infantil, não sou pai…ou seja, sou um perfeito inapto ou ignorante para falar sobre o tema.
De qualquer modo, arriscarei a dar a minha opinião, como costumo fazer.
Vivemos numa sociedade em que, perigosamente, as vontades dos adultos estão cada vez mais submissas às vontades dos mais pequenos. E desta forma temos o mundo ao contrário. Utilizei a palavra “vontade” de forma propositada. Se falasse em necessidades, não estaria aqui a escrever isto e estaria completamente de acordo. O problema é que cada vez mais aparecem mentes geniais a dizer que isto é que está bem.
Teorias há muitas, das sérias às duvidosas, com messias anunciadores de novas verdades, pondo em causa tudo o que se preconiza até à data. Seja na área infantil, como em qualquer outra. Numa época em que os nosso olhos são expostos a um vasto número de informação, em que todos, através duma simples pesquisa no Google, nos sentimos verdadeiros Dr. House’s, temos, mais que nunca, de ser inteligentes naquilo que aceitamos.
E quando falo em ser inteligente, não me refiro a ir pelo caminho mais fácil. Quando temos uma dúvida devemos pesquisar, idealmente, sem nenhuma ideia pré-concebida, senão estaremos a orientar a nossa pesquisa para ir de encontro a essa ideia.
Só como exemplo, se eu consumo muito açúcar e quero pesquisar sobre a interferência do açúcar na minha saúde, não devo, como é óbvio, pesquisar “benefícios do açúcar para a saúde”. Adultero o meu estudo e só me servirá para tapar os meus olhinhos e insuflar o meu ego…”Eu estava certo, o açúcar tem benefícios, vou continuar como até agora!”
Isto foi apenas um exemplo, não estou a falar de açúcar, mas sim de crianças e a sua educação. Como se sabe, teorias sobre a educação também há muitas, das mais conservadoras, passando nas equilibradas, até chegarmos às ultra modernas.
E o que nos dizem muitas destas novas teorias que defendem as inocentes e indefesas criancinhas? Que não se deve ser muito exigente com elas, que se deve deixar fazê-las o que elas querem, pois um “não” pode ser muito traumatizante, que não se deve deixá-las chorar etc.
Não sei se é apenas pelas novas gerações de pais acreditarem mesmo nisto, não sei se é por terem menos tempo para os filhos, não sei se é por terem menos paciência, não sei se é por não se quererem dar ao trabalho de educar…mas os miúdos são, cada vez mais, o reflexo destas novas teorias que, na minha, repito, minha opinião, apenas servem para deseducar e formar pequenos malcriados e prepotentes.
Havendo vários aspetos que considero equivocados, o maior equívoco que assisto é a igualdade de estatuto entre criança e adulto. Temos inocentes crianças que chegam a qualquer sítio e pensam que são donas e senhoras de tudo. Temos inocentes crianças que não fazem o que lhes mandam, simplesmente, porque não lhes apetece. Temos inocentes crianças que olham para um adulto da mesma maneira que olham para o colega do lado. Temos inocentes crianças que se portam muito mal e são incapazes de o reconhecer…talvez porque não têm bem definida a diferença entre bem e mal, porque o portar-se mal é a única realidade do seu dia-a-dia.
Depois temos os pobres dos professores, ou de qualquer pessoa que tem que ensinar alguma coisa às crianças, que se deparam com uma situação enviesada. Em vez de receberem alunos para ensinar, recebem alunos que têm, em primeiro lugar, que educar para depois ensinar. E educar demora muito mais tempo e dá muito mais trabalho que ensinar. E os programas nas escolas de certeza que não contemplam o tempo necessário para a primeira. As escolas, quanto muito, devem reforçar a educação que é transmitida em casa…nunca ser veículo primário de algo que as crianças desconhecem no seio familiar.
Adoro crianças e o carinho que tenho por elas não diminui por não aceitar colocar-me ao nível delas. Nem o delas por mim diminui. Tanto brinco com elas, como a seguir exijo disciplina. E a melhor maneira de transmitir valores é dando o exemplo. Acredito sinceramente que uma criança sem regras é uma criança que se sente perdida, embora possa aparentar ser dominante. Elas precisam de amor, sem dúvida, mas também de regras, disciplina e, acima de tudo, de orientação.

Como disse, teorias há muitas, mas os resultados avaliam-se na prática. E a prática diz-me, não sei se só a mim, que o modelo educacional atual está errado. Porque não é um caso, ou dois ou três, é a maioria. Os bons resultados, esses começam a ser a, cada vez mais pequena, minoria. A culpa…a culpa nunca será das crianças, elas são as vítimas. Felizmente para elas que ainda há quem adore trabalhar com elas.





terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Capítulo final...

Estas últimas palavras que te escrevo são posteriores à nossa despedida…sim, despedi-me de ti naquele café da véspera da véspera de Natal. Não podia ter escolhido melhor, o local onde te conheci, mais um belo serão na melhor das companhias. Gostei de conversar contigo nessa nossa última conversa, gostei de sorrir contigo, gostei de te olhar uma última vez olhos nos olhos. Foi tranquilo sentir-te o centro do meu mundo pela última vez. Por tudo isso ainda ganhei mais convicção na decisão que havia tomado dias antes.
Por ver que estava a seguir um caminho sem saída ou, pior ainda, um caminho sem fim à vista, decidi largar-te. Tentar conquistar-te, sem discutir se foi errado ou não, consumiu-me tempo e energias. Neste momento, sinto-me cansado e deixar-te ir foi um alívio, tal como acredito que o seja para ti.
Apesar de ainda o sentir, o que restará quando isso acabar? Foi esta a pergunta que fiz a mim mesmo inúmeras vezes, na dúvida se o passo que iria dar seria o mais correto ou mais justo. Não sei, sinceramente não tenho resposta para te dar. Simplesmente não espero nada mais, estou exausto para segurar uma amizade que, aos meus olhos, foi sempre de sentido único. Lamento profundamente, acredita.
Afastar-me de ti, assim radicalmente, pode ser uma atitude egoísta, assumo-o sem problemas, mas por vezes tenho que pensar primeiro em mim. Para podermos, eventualmente, ser amigos ou colegas, temos que estar sintonizados na mesma frequência. Agora, eu estou numa frequência muito alta e tu numa muito baixa. Estou numa gritante desigualdade para contigo. Terá que desaparecer o que sinto para poder pensar nisso. E isso só o consigo se não te vir, se não te ouvir, se não te sentir. Duvido é que quando isso acontecer ainda sobre algo que nos una.
Não estou minimamente chateado contigo, quero frisar bem isso. Foste e és a melhor pessoa que conheci desde o meu regresso a casa. E nada fizeste para que me apaixonasse por ti. Por isso esta sensação de perda que me invade estes dias, mas fundamental para eu seguir em frente. Parto por respeitar a tua decisão, o que tu sentes ou não sentes. Nem eu nem tu somos culpados pelo que sentimos. Lamento apenas que não me tenhas dado um rotundo “não”, um “não” que cortasse qualquer esperança. Se assim fosse, talvez hoje pudéssemos desfrutar de uma amizade que, para já, não me é possível desfrutar.
Estou calmo, muito sereno ao escrever-te estas palavras. Agradeço-te por me teres feito sentir, sem o saberes, algo tão bonito. Foi (ainda vai sendo) real tudo o que senti, tudo o que escrevi em todos os textos e cartas que te dirigi. Não sei quando, mas um dia será passado. Foste a melhor coisa que não chegou a acontecer na minha vida.
Do fundo do coração, espero que sejas feliz. Mereces, assim como eu mereço. Até qualquer dia, numa mesa de café ou num cruzar na rua.
Beijo,

Jorge


domingo, 22 de janeiro de 2017

Cumplicidade

Se há algo que toda a gente sabe de mim, dos amigos de longa data aos amigos mais recentes, é a minha devoção aos meus afilhados. Ela a mais bela de todas as princesas, ele o chico esperto mais engraçado que existe.
Um dia, certamente, serei pai. É uma vontade que foi crescendo dentro de mim desde bem cedo, quando era criança ainda, e todos sabemos que os sonhos de criança são os mais puros e sinceros. Deve-se isto, em grande parte, a ter sido escolhido para padrinho em tão precoce idade, tendo semeado o sonho ao ver crescer a minha Joana. Desejo este reforçado com o aparecimento do meu João Pequeno, já numa fase diferente da minha vida.
Adoro crianças, embora não seja dos que as tratam com exagerado mimo e tolerância, não perdendo, na minha visão, o carinho e respeito que me retribuem.
Reunir na mesma sala os meus dois afilhados é sempre uma experiência que me enche o coração. E desta última vez, alguém conseguiu captar um daqueles momentos que ficará eternamente guardado na minha memória. Fora as brincadeiras entre os dois a que pude assistir, o olhar revelado nesta foto é, para mim, do mais ternurento e cúmplice que pode haver.

Não sei se já disse, mas amo os meus afilhados…somos o perfeito triângulo "J"...Jorge, Joana e João!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Não foi esquecimento

Sei que o teu aniversário terminou há uns minutos, sei que, às tantas, parece que nem te felicitei dada a ausência de palavras, mas nada mais errado.
Estive à procura de fotos contigo e não encontrei mais do que as de anos anteriores, consequência, quem sabe, de seres sempre o fotógrafo de serviço.
Vivemos num mundo em que uma foto perdeu valor, dado os milhões que se devem tirar por dia, mas de vez em quando convém deixar alguma para a posteridade.
De resto, felicitei-te e volto a felicitar por mais um aniversário, mais um
que foi possível passar envolvidos no calor da família. A minha prenda este ano foi essa, tentei que tivesses perto de ti todas as pessoas que são importantes.
Cada vez mais os bem materiais significam menos, ficam os momentos, as histórias, as memórias que ficam gravadas na nossa cabeça.
Se pudesse dava-te o mundo, pois seria o mínimo para retribuir tudo o que me deste e dás, para retribuir a pessoa na qual, em grande parte por ti, me permitiste tornar. Sempre foste primeiro Pai, depois Amigo, mas deste modo sempre soube que tinha em ti o melhor deles…o Pai e o Amigo.
Espero que tenhas tido um feliz aniversário…e parabéns, muitos parabéns!

Beijo,
Do teu Filho


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Tão perto…e tão longe!

No outro dia fui jantar e tomar café com um dos meus grandes amigos, daquelas pessoas que por muito tempo que possamos estar sem nos ver, a amizade em nada é abalada. Crescemos praticamente juntos e somos duas pessoas, modéstia à parte, cultas e com gosto em discutir um largo número de assuntos do dia-a-dia. Como consequência, nas quase quatro horas de convívio não houve espaço para telemóveis ou silêncios constrangedores. Sim, somos terrestres e não de Marte.
Estávamos em amena cavaqueira no café quando se senta um casal, na casa dos quarenta anos, na mesa ao lado. Até aqui nada estranho. Passa o tempo e, uns trinta minutos depois, outro casal chega e senta-se com o anterior, ele junto a ele, ela junto a ela e começam a falar. Virei-me para o meu amigo e perguntei “reparaste no mesmo que eu?”, ao que ele respondeu afirmativamente. E no que ambos, sem falarmos disso, reparamos?
O primeiro casal desde que se tinha sentado, ele e ela apenas tinham falado para pedir o que queriam. Desde aí até chegarem os amigos, um silêncio absoluto, absorvidos pelos deslumbrantes ecrãs dos seus telemóveis.
Juro que fiquei “incomodado” com o que assisti, uma cena surreal, mas que, cada vez mais, assistimos todos os dias em vários contextos. Vivemos num mundo egoísta e de relações solitárias (a velha questão de estar sozinho acompanhado).

Há uma preguiça gritante em se estabelecer contacto social, mesmo que as mesas de cafés e de restaurantes estejam lotadas com supostos amigos. Qual a lógica de ir ao café com um amigo e pôr-me no facebook a falar com outro? Para depois chegar a casa e ir ao facebook dizer ao amigo com quem tomei café “Pá, temos que marcar outro café para falarmos mais um bocado!”
Já escrevi sobre isto, mas repito. Estamos com as pessoas sem estarmos. Somos companhia sem o sermos. Desrespeitamos quem perde um pouco do seu tempo para estar connosco com a mais gritante falta de respeito. Temos uma incrível dificuldade (ou falta de vontade) para reinventarmos as nossas relações, sejam elas de que género forem.
Podem dizer que exagero, mas basta olharmos com olhos de ver o mundo à nossa volta e facilmente constatamos a veracidade do que digo. As causas podem ser discutidas, a realidade é o que se vê. E isto começa em idades, cada vez mais, precoces.
Somos, cada dia que passa, mais e mais prisioneiros do mundo virtual, tal e qual uma serpente encantada que segue o som da flauta. Estamos em tal ponto que o estado de encantamento é visto como sendo algo normal, o que nos rodeia é visto como secundário.
Os telemóveis e as redes sociais mudaram, sem dúvida, o mundo…duvido é que o tenham tornado melhor e mais feliz.