domingo, 5 de novembro de 2017

Moinho de Vento

Movido pelas monstruosas aragens
Das serras miradouro
De magníficas paisagens
De Fafe é tesouro.


Seus longos braços de madeira
Pela brisa aguardando
Parecendo de brincadeira
Vão pouco a pouco trabalhando

Desafiador de tempestades
Dos cereais escultor
Do moleiro protetor
Tempos que deixam saudades.



Hoje, abandonado no sopé
Numa vida de solidão
Esperas caminhantes a pé
Para que vejam a tua dimensão!


terça-feira, 24 de outubro de 2017

O atrevimento do indecoro

Não, não me vou atrever a falar sobre os incêndios…sinto-me demasiado envergonhado para falar disso, por pertencer a um país que trata com leviandade futebolística e partidária um tema que tira vidas a portugueses iguais a mim.
Depois de acontecer o impensável, aconteceu o impossível (primeiro indecoro). Bem verdade quando se diz que o impossível só o é até aparecer quem o torne possível. E nisso temos os melhores do mundo a fazer acontecer as piores coisas impossíveis. Temos a classe política mais incompetente, mais desumana, mais sem vergonha que possa existir (mas talvez a mereçamos…).
Após o sucedido apenas havia algo que se poderia dizer aos portugueses e às vítimas desaparecidas…“Desculpem”. Ao invés disso assisti, incrédulo, às declarações do Sr. Costa (segundo indecoro). Acredite que muito me custa chamar-lhe senhor, não merece, não é digno sequer de ser apelidado de pessoa. Não é homem para ocupar o lugar que ocupa, pelo discurso, pela inércia, pela falta de humanismo, pela arrogância, pela maneira como escolheu de subir ao poder.
Depois temos a Constança, de uma inconstância descomunal (terceiro indecoro). Fala a pobre mulher que não teve férias. Deixe-me que lhe diga, podia ter ido que não se teria dado pela sua falta.
Temos os do poleiro, que lançam as culpas para cima dos que lá estiveram e para a população, como se não fosse nada com eles (quarto indecoro) …apenas a recuperação fantasma do país se deve a eles.
Temos os que estiveram no poleiro e já não estão, a apontar o dedo como se em nada tivessem contribuído para o estado de calamidade verificado (quinto indecoro).
Temos Portugal no seu melhor, em que a culpa sempre morreu solteira. Esta impunidade que se vive na política simplesmente enoja-me, não há outra palavra que expresse melhor o que sinto.
Depois vem o pior de tudo. Eu dos políticos já tudo espero, já nada me espanta. O que me espanta é muito boa gente vir a poleiro defender o indefensável (sexto indecoro). Quando se devia ser firme e intransigente com todos os responsáveis pelo que aconteceu (que não são apenas deste ano), pelas vidas perdidas, para alguns elas são admissíveis dependendo da cor política que governe. Vêm com paninhos quentes, vêm dizer que são situações inesperadas (para quem é inesperado algo que acontece ano após ano?), que não se podem controlar, etc. Sabem, também me enoja esse tipo de discurso…profundamente.
Depois há as manifestações solidárias para com os bombeiros, com os donativos em bens e dinheiro, no apelo a que todos devíamos ser associados etc. Já refleti muitas vezes a minha opinião sobre os bombeiros, admiro imenso o papel deles, admiro mesmo, eu não o faria. Em pleno século XXI não acho que seja admissível, para uma profissão tão exigente, o voluntariado. Em tempos que se exige profissionalismo máximo na mínima das profissões, esta não pode seguir nas mãos da boa vontade. Tem que se dotar os bombeiros de condições para que possam exercer a sua profissão de forma segura, para eles e para os outros. Seria algo que traria maior responsabilização aos profissionais em causa, mas repito, sendo profissionais estariam em muito melhor posição para o assumir. Ou será que ainda temos os hospitais cheios de freiras a prestar cuidados de enfermagem? Nada contra as senhoras que o fizeram e ajudaram na evolução da profissão, mas os tempos e exigências mudaram.
Para finalizar, temos as árvores que de repente nos lembramos de plantar, em vez de dar brinquedos às crianças e pronto, problema resolvido, nada do que se passou este ano voltará a acontecer…peço desculpa, mas, em primeiro lugar, não são as crianças que têm culpa do sucedido. Em segundo, não contem comigo para ser cúmplice no camuflar da situação.
É a hora de apontar o dedo de vez, de pedir a “cabeça” dos responsáveis, de tomar medidas que realmente mudem o panorama e nos permitam ter segurança no futuro. Brincar ao faz de conta fará com que para o ano estejamos aqui outra vez a falar do mesmo, a pedir mais donativos e associados para os bombeiros e a plantar novas árvores para substituir as que se queimaram de novo. Nem tudo é possível de substituir, nem tudo se resolve com a boa vontade de voluntários e cidadãos. As vidas humanas que se perderam e tudo que representam não voltam.
Na Galiza morreram quatro pessoas, saíram milhares à rua, aqui morreram muitas mais, milhões puseram-se online. Por isso digo, temos o que merecemos.
Temo ser uma mente perturbada, com ideias alucinogénias num mundo equilibrado e são. Talvez esteja sozinho, a falar com os meus botões num estado de muda esquizofrenia. Mas dentro da minha loucura, estou imensamente preocupado pelo mundo onde vivo.



sábado, 21 de outubro de 2017

Para ti...

Vi-te nascer,
Ainda cria inocente
Vi-te crescer,
Mulher resplandecente!

No meu colo andaste
O meu pescoço abraçaste
Na minha mão seguraste
Em mim confiaste!

Foste uma brisa outonal
Nascida no mês das folhas cadentes
Lançaste-me feitiço colossal
Como as encantadoras serpentes!

És prosa do meu pensamento
Poesia do meu sentimento.
És beleza que encandeia o meu olhar
És causa do meu suspirar.

És flor do meu jardim
Que me alegra a visão
Um amor que não tem fim
Sangue do meu coração.

Parabéns querida Joana! Sê feliz, hoje e sempre.
Beijinho,

Do Padrinho

sábado, 14 de outubro de 2017

Cara Bastonária

A Enfermagem vive momentos de grande agitação, com grande mobilização dos seus membros em busca de um caminho de dignidade e valorização profissional.
No meio deste alvoroço surgiram os habituais sindicatos, uns aproveitando a união da classe para bradarem bandeiras, outros colocando-se, a meu ver inexplicavelmente, de lado (não ao lado) desta falange humana e, de forma algo inusual, a Ana Rita Cavaco, nossa Bastonária.
Faço um interregno nas minhas ideias para dizer o que não costumo dizer. Votei na colega nas eleições para Bastonária, digo-o não para bajular quem quer que seja, ao dizer isto apenas aumento a exigência na forma como me representa. E porque fui dos poucos que votei…e porque fi-lo em si? A colega não me conhece de lado nenhum, eu conheço-a apenas agora, depois de dar voz à nossa classe. Que me levou a votar em si? Li as ideias da sua candidatura e pareceu-me ser alguém que não esquecia nenhum enfermeiro, nem os de cá, nem os que estão espalhados pelo mundo fora. Isto no papel, claro, com o exemplo que temos das promessas políticas, o pobre sempre desconfia. Mas acreditei, talvez tenha querido acreditar que viesse a ser verdade. A lembrar-me dos sete anos que trabalhei fora do país, abandonado pela Ordem, tal como os meus demais colegas.
Após atento seguimento das suas intervenções em diversos meios, a prova de fogo chegou no dia “B”. E o que vi, o que todos vimos, foi um Basta nas dúvidas que pudessem haver sobre a Ana Rita Cavaco. A colega é, neste momento, a nossa líder, a nossa principal defensora, é mais uma nas batalhas que a Enfermagem trava atualmente.
A nossa Bastonária, antes dos dias da manifestação, foi alvo de vários ataques, internos e externos. Acusaram-na de ser sindicalista…eu acuso-a de ser mais uma Enfermeira. Mal seria se o papel da nossa representante máxima se limitasse a dizer o que não vai bem…e não o sentisse. Como o sente, simplesmente tinha o dever moral de acompanhar, lado a lado, os milhares que se manifestaram…como o fez.
Dias mais tarde, novos ataques internos desesperados e sem sentido de oportunidade…e aqueles que por si são defendidos saíram em bloco em sua defesa. Finalmente, após anos (eu após nove anos) de uma Ordem desordenada nas suas intenções, temos uma Ordem que luta pelos seus, mesmo por aqueles que insistem em mostrar mal-estar por não estarem no lugar da colega.
Ana Rita Cavaco, parabenizo-a pela postura que tem tido desde que assumiu o cargo, apesar de nem sempre concordar com o modo como terá feito ou dito certas coisas, mas não é a mim que tem que agradar e o meu ponto de vista nem sempre será o mais certo. Contudo há algo que lhe reconheço independentemente dos métodos, luta pela Enfermagem, não pelo cargo. Não sendo dos que defendem que “falem bem ou mal, o que interessa é que falem”, acredito que não podemos ficar calados com receio da reação do resto do mundo. E a Ana Rita Cavaco não tem medo, deu voz ativa e válida à nossa profissão.
Espero que, no dia em que dê o lugar a outro/a, as minhas palavras mantenham esta índole. É um desejo sincero, porque acho que o que fez neste pouco tempo em que assumiu o cargo não merece outro desfecho.
Não deixou de ser Enfermeira para ser Bastonária…ah, cara colega, e de que maneira nós precisávamos duma Bastonária Enfermeira.

Um sentido abraço…pela Enfermagem.

domingo, 24 de setembro de 2017

A vida é feita de decisões

Não sei se será defeito ou qualidade, mas uma das coisas que pauta a minha vida é a certeza do que quero e do que não quero. Mesmo quando as decisões são difíceis, com muitas mudanças em jogo, se é algo que eu quero ou não quero sei bem qual vai ser a resposta.
Foi isso que me guiou em duas das decisões mais difíceis que tive de tomar. A primeira delas há pouco mais de nove anos, quando me chamaram para trabalhar em Pontevedra. Era jovem, com curso acabado há um ano e um sonho por cumprir. Talvez não fosse um sonho, antes um objetivo. Seria hipócrita se dissesse que gostava da Enfermagem logo após acabar o curso, não o sabia e tinha muitas dúvidas se conseguiria ser enfermeiro. Mas tinha que o saber, após anos de estudo e de sacrifício dos meus pais.
Desse modo, ao receber a chamada, sabendo que aquela era a única saída dignificante naquele momento, prontamente disse que sim. Sabia que esta resposta iria tirar-me da minha zona de conforto, que iria proporcionar-me o maior desafio da minha vida. Sabia que me ia fazer perder, sem saber o que ia ganhar.
E assim foi, novo trabalho, nova cidade, novo país, novos costumes, nova língua. Uma experiência que eu esperava ser curta, durou pouco mais de sete anos. Anos em que cresci como nunca tinha crescido antes, em todos os aspetos da minha vida. E passados todos esses anos, quando talvez menos o esperasse…uma nova chamada.
E tal como sete anos antes, pouca hesitação na hora de dizer que sim, pois estavam outros sonhos por cumprir. Mas desta vez, apesar da certeza que tinha, custou muito mais. Primeiro, por abandonar o lugar que, longe de ser um sítio de trabalho fácil, me ensinou a amar a Enfermagem, que me ensinou a amar cuidar do próximo. Segundo, por abandonar as pessoas que mais de perto me acompanharam nesse tempo todo. Pessoas que vi no seu olhar surpresa e tristeza por eu sair, mas a alegria por saberem que eu ia atrás do que eu queria. Acho que é assim que vemos as verdadeiras amizades, quando se priorizam os sentimentos em função da felicidade dos amigos. As lágrimas que me caíram e que escondi, faz hoje sete anos, ao sair do meu último turno em Santa Maria, foram de profundo agradecimento por tudo o que aquele lugar me deu e, sem falsas modéstias, por reconhecer também o muito de mim que lá ficou.
Santa Maria será sempre uma das minhas casas, um local ao qual regresso sempre que posso para recordar pessoas e experiências que me fizeram ser a pessoa que sou hoje.
Faz hoje dois anos, que finalizei uma etapa da minha vida e iniciei outra. Fase esta que tem sido pautada pelo amadurecimento pessoal e profissional, dando-me ainda mais certezas do que gosto, do que quero e do que não quero na minha vida.
Ter estado fora de Fafe mais de um terço da minha existência faz-me gostar ainda mais da minha terra. Por saber que não é o centro do mundo, por saber que as importâncias do meio são insignificantes no decorrer da vida no resto do mundo, por saber que há lugares com muito mais que oferecer. Ter consciência disso, faz-me saber estar no meu sítio, dar o meu contributo em tudo o que faço, mas sem me colocar em bicos de pés.
Há dois anos regressei, não porque fui obrigado, mas porque quis. Um regresso ao conforto do meu lar, mas sem nunca esquecer que há muito mundo por descobrir…e muitas decisões para tomar sem hesitar.


(a música que traduz o sentimento pelo qual sempre tive vontade de regressar)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O último suspiro

Sou enfermeiro, sou duma classe de profissionais que estão presentes na vida de todos os utentes/doentes do nascer ao morrer.
Eu próprio já tive a possibilidade de assistir a esse maravilhoso (para alguns) momento que é a vinda ao mundo dum novo ser. Estava eu em estágio, assisti a dois partos, uma experiência que ainda hoje guardo na memória como se tivesse sido ontem.
Pelo contrário, foram já muitas as vezes em que assisti ao fim da vida, sendo o muito sempre uma palavra tão relativa…é muito para quem nunca assistiu a tal momento, será pouco para quem diariamente vê isso acontecer. Mas foram algumas.
Antes de prosseguir, reitero que tudo o que escrevo aqui, seja de que tema for, é a minha visão, a minha opinião ou a minha maneira de sentir as pessoas, os momentos ou as coisas. Poderá e não será a de outras pessoas.
Não escapando ao ciclo natural da vida, já perdi pessoas como quase toda a gente. Já vi falecer todos os meus avós, perdas muito sentidas, perdas pungentes, perdas muito saudosas. Foram partidas físicas, mas também de todas as lembranças dos momentos vividos anos a fio. Porém, foram experiências que nunca me prepararam para as perdas profissionais. Nem estas para as pessoais.
Há dois anos mudei de serviço, há mais de dois anos que não me morre um paciente. Contudo, essa não foi a minha realidade durante sete anos. Durante esses anos, já não sei dizer ao certo quantos doentes vi morrerem. Uns cujo fim era esperado, outros em que não o era.
Lembro-me, ainda hoje, das feições e do nome do primeiro paciente que perdi. Lembro-me do que foi feito, em vão, para o impedir. Foi o primeiro último suspiro que vi. Foi a primeira vez que senti o calor humano transformar-se num frio gélido, foi a primeira vez que vi olhos cheios de vida transformarem-se num olhar vazio.
É muito diferente apenas vermos um corpo inerte de vermos um corpo passar dum estado de vida para um estado de inércia. Não consigo encontrar palavras para explicar o que se sente, ou melhor dizendo, o que sinto. Há quem diga que uma pessoa se habitua. Talvez nos habituemos a ver cadáveres, agora a ver o momento exato em que a vida acaba, acho que não há quem se habitue a isso.
Não acredito em fantasmas, mas muitos dos pacientes que perdi (alguns deles com anos de convivência) vaguearam pelos meus sonhos, pelos meus pensamentos quando acordado, pelas minhas lembranças. Não sendo meus familiares, cada um deles significou para mim uma perda, por muito que as lágrimas não tenham caído. Assisti ao último suspiro de familiares de outros, esse é, talvez, o maior fardo que tive que suportar.
E não, não há nenhuma cadeira na Universidade que nos ensine a lidar com a morte dum paciente e com todos os sentimentos inerentes a ela. E não, não temos um botão “On/Off” que nos permita desligar os nossos pensamentos/sentimentos quando entramos ou saímos do local de trabalho.

O Jorge enfermeiro é o mesmo que no dia-a-dia se dedica de corpo e alma àqueles (e àquilo) de quem gosta e ama. Mas, cada vez mais, a minha profissão molda a minha maneira de ser e agir. Por muito que diga que não trago trabalho para casa, e acreditem que tento fazer por isso, é impossível que muito do que sinto e passo no meu trabalho como enfermeiro não me acompanhe para fora daquelas paredes. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Parabéns rapaz grande :)

Há 2 anos atrás, neste dia, tive a certeza que o meu tempo em Espanha estava a acabar. Fazias tu 3 anos, eu tinha vindo aqui apenas uns dias antes e tinha dito à tua mãe que não podia ir à tua festa de anos.
Só que chegou o teu dia, saio de fazer noite e fiquei a pensar…tu não ias voltar a fazer 3 anos. Fui dormir com a certeza do que faria ao acordar.
Acordei e pus-me a caminho, a caminho da tua festa e a caminho do calor da nossa família, mesmo sabendo que no dia seguinte teria que voltar. Ao chegar, o abraço que demos fez-me querer ficar, o largar-te fez-me apertar o coração de angústia.
Pouco tempo depois regressei de vez, para tentar recuperar o que não tive durante os anos fora. Com o abraçar de novos projetos/desafios nem sempre me é possível estar contigo o tempo que quero, mas agora, quando estamos juntos, não há o pensamento que nas horas ou no dia a seguir terei que abalar.
Hoje fazes 5 anos, apesar de ter ido trabalhar conseguirei ir a tua casa dar-te os parabéns. Não imaginas o que uma coisa tão simples significa. Ter qualidade de vida, acima de tudo, é poder ter estes pequenos momentos, por isso exijo tão pouco à vida. Não é falta de ambição, é saber que tenho o que já me vi privado de ter.
Estás um rapaz grande e espero continuar ver-te a crescer, sempre saudável e tão enérgico.
Hoje o dia é teu, espero que estejas a ter um feliz aniversário…até logo meu querido João!

Beijinho de parabéns do Padrinho.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

De Ibiza à Galiza…

Terminam em breve as férias de Verão, aquelas pelas quais sempre mais anseio. Quem me conhece sabe que adoro praia, sol e mar, logo os destinos nesta época do ano têm apenas estes critérios a preencher.
Desta vez comecei por viajar até à "caliente" ilha de Ibiza, local mais falado pela sua badalada vida noturna, apesar de não ser esse o motivo que lá me levou.
Foram sete dias de plena descoberta das mais belas praias que vi até hoje. Praias longe de tudo, no fim de falésias, com a água mais cristalina que se possa imaginar. Água quente a condizer com o tempo, sempre a convidar a um mergulho.
Ibiza foi um fator de crescimento pessoal, vi o que nunca antes tinha visto, vi dois extremos da mesma ilha. Se por um lado temos a degradante vida noturna proporcionada pelos ingleses, com borracheiras descomunais a elas andarem quase nuas na rua, pelo outro temos o glamour das festas da alta sociedade, onde vi das mais belas mulheres até hoje, e um mundo que pensamos apenas existir nos sonhos. Ao ter podido ver este lado de Ibiza, fico feliz. Apesar de gostar de ter mais dinheiro (creio ser desejo de toda a gente), fico contente por ter crescido a poder dar valor a tudo o que tenho, algo que acredito ser impossível aquelas pessoas de berço de ouro (quando falo de berço de ouro, não falo de meninos ricos…mas sim de alguns níveis acima disso).
Pelo meio temos as festas das pessoas ditas “normais”, acessíveis a quem esteja disposto a gastar mais do que o habitual, devido a uma inflação absurda dos preços, quer de entrada quer das bebidas.
Ibiza tem tanto para dar de dia como de noite. Simplesmente acho que é impossível conhecer os dois ao mesmo tempo. Dei prioridade ao dia, pois o mundo noturno tem pouco a oferecer para a renovação das minhas energias, que é o que procuro nas férias.
Regressado de Ibiza rumei mais a norte, àquela que foi a minha cidade durante sete anos, Pontevedra.
Antes de lá chegar duas paragens obrigatórios, uma em Caminha e outra em Valença. Há amizades que se fortalecem com a distância, pois são pessoas que tenho a certeza que me fazem falta no meu dia-a-dia. Rever grandes amigos e amigas é um prazer obrigatório. Estão longe, então todas as oportunidades de estar com eles, nem que seja uns minutos, têm que ser concretizadas. A sensação de ter irmãos mesmo sendo filho único é indescritível. São poucas as pessoas capazes de tal façanha, daí merecerem todos os segundos que passo com eles.
Tive a possibilidade de conhecer a “C”, uma pequena e linda princesa de apenas uns meses de idade, uma sobrinha sem o ser. De olhar terno a um sorriso encantador, com os pequenos dedos a envolver com força o meu…é a felicidade dos pais e sou feliz por vê-los assim.
Regresso então a Pontevedra, complemento mais que ideal a Ibiza. Hora de recordar as minhas amizades de lá, os velhos sítios familiares e de conhecer novos locais. Tive sorte de o tempo ter sido convidativo a mais uns dias de praia, o que serviu para descobrir que a Galiza tem praias que pouco deixam a desejar às praias que falei anteriormente. Podem ter a certeza, não fosse pela instabilidade do tempo, o meu local de férias seria sempre este. Praias de extenso areal limpo, água transparente, mas fria. Foi tempo também de matar as saudades das verdadeiras tapas, aquelas que é uma maravilha deliciarmo-nos com elas num fim de tarde na companhia duma boa cerveja.

Chego ao fim destas férias completamente revigorado dum ano que foi exigente, com forças e vontade para enfrentar o que um novo ciclo me irá trazer. Quero fechar velhos livros e descobrir novas histórias, concretizar velhos sonhos e construir novos. Certeza tenho que não quero ficar parado, nem no tempo nem na vida.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Meus queridos avós

Faz muito tempo que não os vejo
Tão simples era esse desejo.
É uma saudade desesperante
A recordação transforma o meu semblante.
Sorrio ao lembrar os melhores momentos
Mas é a ausência que me faz chorar (ainda) nos meus pensamentos.
Foram pilar da minha infância
Parece que ainda sinto a vossa fragância.
Do vosso colo sinto o calor
Aquele que afugentava qualquer temor.
Do vosso olhar sinto o carinho
De cada vez que me chamavam Jorginho.
Das vossas mãos sinto a segurança
O abrigo da minha esperança.
Tempos esses tão distantes
Porém saudosamente reconfortantes.
Que se tornem uma miragem
Nesta minha viagem
É grande esse receio
Que enfrento de coração cheio.
Partiram demasiado cedo
Era esse o meu maior medo.
Mas nem todo o tempo do mundo chegaria
Para tê-los todo o tempo que queria.
Sou parte do vosso legado

Aos quatro, o meu sincero Obrigado.







terça-feira, 18 de julho de 2017

Um ano intenso

Termina agora o meu segundo ano como instrutor de Karate, mais um ano de grande aprendizagem, de muito trabalho e enorme satisfação.
Destaco, logo em primeiro lugar, o crescimento relativamente ao número de alunos. Pode-se dizer que o Karate está na moda, cabe-nos a nós, atores principais desta arte, fazer que esta afluência atual se mantenha e que, mais importante, fazer com que quem venha fique.
Posso dizer que a turma deste ano exigiu muito de mim, com muitos avanços e recuos, com algumas frustrações por não ver os resultados pretendidos no tempo esperado. Foram muitos os treinos em que verificava que o que parecia assimilado afinal não o estava ou treinos em que finalmente se portavam todos bem e no seguinte voltava tudo à estaca zero.
Foram vários os momentos de reflexão e estudo sobre quais as estratégias usadas e a usar. Sempre fiel aos meus princípios (e aos da nossa escola) naquilo que considero que deve ser um formador de crianças. Sempre exigente no princípio mais básico que deve orientar uma sociedade…o respeito pelos outros.
Foi um ano em que os pequeninos do ano passado continuaram a sua evolução, com um crescimento a todos os níveis notável, sendo um exemplo para os que acabam de chegar.
Também foi um ano intenso para os nossos competidores, com um objetivo bem definido. Deram no duro, sacrificaram-se, tiveram dúvidas, choraram com as dores, com os contratempos, mas nunca viraram a cara à luta. Foram grandes Karatecas. E os resultados foram aparecendo, fruto de todo o trabalho desenvolvido. A alegria deles foi a alegria de quem os viu crescer ao longo do ano.
Claro que todas as dificuldades foram atenuadas por ter ao meu lado duas pessoas que contribuem diariamente para o meu crescimento enquanto formador de crianças e karateca. Tudo se torna mais simples quando temos pessoas que comungam connosco a mesma filosofia, os mesmos princípios e os mesmos objetivos.
Foi mais um ano a comprovar que o objetivo primordial do Karate não é formar campeões de medalhas ao peito. É fantástico ver pequenos guerreiros a ultrapassarem as suas dificuldades, a tornarem mais fácil o que antes era impossível. Neste final de época, sou alguém que acredita plenamente que todos os miúdos têm alguma coisa a ganhar com o Karate. Certeza tenho que quando alguém pensar em desistir, eu não desistirei dele. No dia em que desistir de um aluno, será o dia em que irei pendurar o kimono e dar lugar a outro.

A todos umas ótimas férias…espero-vos em Setembro. OSS!



terça-feira, 11 de julho de 2017

Duas pequenas heroínas

Ontem desloquei-me para mais um treino, mais um treino a promover a arte a jovens desconhecidos, inserido no programa de férias desportivas. Algo que me tem chamado muito a atenção nestes treinos, é o incrível interesse que as crianças têm pelo Karate, pelo treino em si e a disciplina que apresentam.
Falamos de crianças dos 6 aos 12 anos, crianças que nunca tinham contactado com o Karate e que assimilam rapidamente os passos iniciais desta arte…saudação, respeito pelo Sensei e pelos colegas, entrega ao treino etc. Quando assim é, dá real gosto dar um treino, não cansa e o tempo passa a voar. Fazem corar de vergonha muitas crianças já crescidinhas, que não sabem estar e, sinceramente, para as quais cada vez tenho menos paciência.
Ao alinhar as crianças verifiquei que uma delas era portadora de Síndrome de Down. Nunca tal me tinha sucedido, mas não fiquei intranquilo. Um defeito meu, que vou aprimorando nesta minha curta vivência como treinador, é acreditar que posso tirar sempre alguma coisa de todas as crianças, tenham elas os problemas que tiverem. Por isso iniciei o treino ansioso por ver a resposta que a menina me ia dar. Fez o treino todo sem se notar qualquer diferença para os colegas, até executando muito melhor do que outros.
Ao iniciar o treino, reparei também que uma aluna estava sentada, sem fazer o treino, por indicação de uma responsável por eles. Não sabia o motivo, mas é normal haver sempre algum doente, logo não dei importância. Com o decorrer dos exercícios, a menina levanta-se e começa a correr e a repetir os movimentos que eu fazia. Uma corrida desequilibrada…um esboço dos movimentos. Uma voz muda, mas um olhar que tudo dizia. Percebi que era uma aluna com alguma coisa parecida a paralisia cerebral.
Uma colega dela, rapidamente e preocupada disse-me “Ela não pode treinar!” Perguntei o porquê e a resposta foi “É deficiente”. Tranquilizei a rapariga e disse-lhe que era eu a dar o treino e que, enquanto assim fosse, ela ia treinar. Como podia eu negar o treino à pessoa que mais interessada nele estava?

Foi, talvez, dos treinos em que mais aprendi. São estas alturas que me ensinam a relativizar, a relativizar os meus “problemas” ou a relativizar a importância que damos às coisas sem valor. Aquelas duas meninas são, para mim, um exemplo de querer e de superação, são minhas heroínas.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Vida em suspenso

Lembro-me, como se fosse hoje, do preciso momento em que decidi que ia emigrar. Por muito que se diga que se está na disposição de emigrar, nunca o temos tão presente como o instante em que nos dizem “começas dia x”.
Nesse dia, a fazer nos próximos dias nove anos, mais um dia num trabalho que gostava, mas que não era o meu, recebi a tal chamada do país vizinho. Não havia muito que escolher, não havia muito que pensar. Havia, isso sim, um sonho por cumprir, que ao mesmo tempo era a maior das minhas dúvidas…será que nasci para ser enfermeiro? Por isso, não houve hesitação na hora de aceder ao chamamento, o que não significa que não houvesse medo, insegurança e as tais dúvidas.
Sei que fui para relativamente perto, antes que digam que fui um emigrante de vida fácil. Sim, Pontevedra é aqui ao lado, Espanha é o país nuestro hermano, dizem que a língua é fácil etc. A minha opinião é que fácil é quando vamos como turistas e que a língua se parecer muito à nossa foi mais entrave que facilitador. Sabem quando se fala que nós percebemos tudo o que eles dizem, mas eles não nos percebem? Anda muito longe de ser mito. Agora imaginem não nos conseguirmos fazer entender no local do trabalho, quando o relacionamento humano é fundamental, ou numa qualquer repartição pública, como finanças ou segurança social (ir lá em Portugal já é um bicho de sete cabeças).
Nessa linda Pontevedra, cresci como enfermeiro e como homem. As dificuldades que senti no início foram desaparecendo, devagar, mas cada vez menores. O local de trabalho deixou de parecer uma casa assombrada passando a ser uma segunda casa, a cidade passou a ser a minha cidade.
Tive momentos felizes nos sete anos em que estive fora do país, mas não posso dizer que o era realmente. No momento em que decidi ir para lá foi o momento em que suspendi a minha vida, de sonhos e de projetos.
Nunca escondi o desejo de voltar ao meu país, sabia que haveria coisas que o podiam impedir, logo pus de parte os meus sonhos mais íntimos. Quando me meto em algo, meto-me a cem por cento, logo o viver num limbo entre dois sítios (Fafe e Pontevedra) foi sempre impeditivo para assumir outras coisas. Num trabalhava, noutro matava as saudades da família e do que me fazia falta.
Sei que isto é uma maneira muito minha de ver a vida, não um perfil linear a todos os que emigram.
Foi há quase dois anos que a minha vida recomeçou a fluir. Voltei a sorrir dentro de mim, permiti-me projetar e sonhar novamente. Não sendo a vida uma permanente felicidade, não deve ser uma constante resignação. Vivo feliz, aqui no cantinho que me viu nascer e crescer, procurando ajudar a sociedade na qual me insiro com o meu grãozinho de areia.

Permitam-me responder à pergunta que fiz no início deste meu devaneio, não, não nasci para ser enfermeiro. Simplesmente adoro o que faço e ser enfermeiro vai muito além das paredes do serviço onde trabalho, permanece em mim mesmo depois de despir a farda. E isto…devo à oportunidade que me deram, há quase nove anos, do lado de lá da fronteira.


sábado, 10 de junho de 2017

A única resposta que te posso dar

Simplesmente não estou em mim, ainda estou a assimilar o inesperado. O dia foi longo, mais um, começou bem cedo e terminou noite dentro.
O melhor da vida são a família e os amigos, tenho essa certeza há muito tempo, logo não podia ter pedido melhor, um dia passado na companhia dessas amizades que nos tornam as pessoas mais ricas do mundo.
Hoje não estou exausto, não poderia estar. Como se costuma dizer, estou com os sentimentos à flor da pele. Reuni os amigos para celebrar o meu aniversário. Não todos, nem todos conseguiram vir, sabendo que estiveram comigo em pensamento. Chegará o dia em que os terei todos juntos, naquele que será o dia perfeito.
Sou sincero ao dizer que a melhor prenda que posso ter nos anos é a presença das pessoas que mais quero. E foi isso que todos vocês foram…mas peço-vos desculpa se vos digo que fui prendado com a mais bela e inesperada das prendas.
Foi, talvez em toda a minha vida, a maior surpresa que tive. Não digo que me enganaram, tem uma conotação negativa nada apropriada à situação. Talvez tenham disfarçado, mas nunca esperei por aquilo que aconteceu. Ter recebido o teu retrato já seria prenda mais que suficiente, ter lido o cartão que a tua irmã me deu…bem, provavelmente nunca tive uma reação tão espontânea, tão sincera e tão transparente. A pergunta nele contida apenas exigia uma de duas respostas…sim ou não.
Por momentos fiquei mudo, com um daqueles nós na garganta que não nos deixam sequer falar. Eu queria falar, queria muito, mas se o fizesse creio que o que estava a tentar conter se desmoronaria. A muito custo contive-me, contive as lágrimas que teimosamente queriam sair dos meus olhos. Por momentos fiquei com a visão turva, com o pensamento desnorteado. Respirei fundo, olhei para os olhos ansiosos da tua irmã, para a perplexidade com que ela assistia à minha própria perplexidade, esperando uma resposta.
Contudo não havia muito que duvidar, muito menos depois da minha reação mais que visível…sim, sem dúvida alguma um grande sim.





quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cai a noite...

Chega a noite, sento-me finalmente no sofá, estico as pernas e dou um longo suspiro. Sinto-me cansado, exausto para ser mais específico, o dia começou na véspera pelas doze horas, termina passadas trinta e seis horas. A sério, já não tenho idade para estas coisas!
Termino agora de agradecer a todas a felicitações que me foram endereçadas durante todo o dia. Espero não ter falhado nenhuma, é importante para mim retribuir um pouco do que me deram.
Por fim, posso respirar um pouco, fechar os olhos e percorrer mentalmente o meu dia de anos. Um dia em que me foi permitido estar com aqueles que me acompanham diariamente e sentir o apreço dos que estão longe.
Primeiro no trabalho. Já o disse várias vezes, aqui, que o carinho que os doentes nos dão sabe bem ao ego, mas antes disso está o carinho que os nossos colegas nos dão. Por vezes não é fácil, por vezes há confrontos de ideias ou ideologias ou o cansaço ou stresse acumulados, mas no fim ficam as atitudes de companheirismo. E hoje senti-me “abraçado” por todos os que me acompanham no local de trabalho.
De seguida no Karate. A casa que já me viu cumprir muitos aniversários, que me acolheu ainda criança e me fez o homem que sou hoje. E o que sinto dentro daquelas paredes, dentro do Dojo, não se explica. A afeição que se cria entre todos não tem equivalente em nada que eu conheça e não poderia fazer anos sem estar com a minha gente, com a família que eu escolhi.
Jantar com as duas pessoas mais importantes, os meus pais. A família onde nasci e cresci. Que me educou sobre firmes valores, a quem agradeço tudo o que sou hoje em dia. Apesar de vivermos sob o mesmo teto, estarmos os três sentados ao mesmo tempo à mesa é algo mais ocasional do que se possa pensar.
Pelo meio, um daqueles cafés com uma daquelas pessoas para quem sempre temos um pouco de tempo. Soube-me bem estar com um desses amigos, para quem a distância é um pormenor e não um problema.
Terminei o dia com os meus amigos diários. Aqueles que no último ano se tornaram pedra basilar da minha existência, que me acompanharam nos bons e maus momentos, que me aconselharam, que me fizeram rir e sorrir.
Agora uma palavra para aqueles com quem não estive, aqueles que de serem tão fantásticos, conseguem ser os meus alicerces mesmo estando a dezenas ou centenas de quilómetros. Eles sabem quem são, sabem que a palavra “amigo(a)” é demasiado curta para expressar o que eles me dizem.
Acabo o dia exausto, mas de coração cheio. Muitas das mensagens ou telefonemas recebidos fizeram-me tremer por dentro. Não sei se sou isso tudo o que disseram. Sei, isso sim, que o que eu sou é graças a todos vós que me acompanhais…sou apenas um reflexo de tudo o que me dão e são.

Sei que é pouco, mas é sincero…obrigado. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Amor à primeira vista

Olá “I”!
Sabes, acabei de te conhecer e tive que pegar na “pena”, tal é o remoinho de sentimentos que me fizeste sentir uns minutos atrás. Tenho que escrever, tenho que soltar tudo o que vai aqui, senão sei que não vou pregar olho.
Foi há alguns anos, muitos para os meus quase trinta e três, que peguei pela última vez em alguém tão pequeno. Na altura com um à vontade que a prática me estava a dar. Porém o tempo passou, a prática também.
Hoje, quando me foste entregue nos braços, tremi…tremi por dentro, os meus braços por um segundo desfaleceram, mas rapidamente despertaram deste inebriante torpor. Tinham que ser fortes, fortes o suficiente para te transmitir segurança, para serem berço confortável. A medo acolhi-te no meu colo, medo da encantadora delicadeza do teu pequeno corpo.
Depois veio o resto…senti a ternura do teu calor. Senti a fragilidade dos teus dedos. Senti a doçura do teu rosto. Senti a tranquilidade da tua respiração. Não tenho dúvida, foi amor que senti, amor à primeira vista.
És uma pequena princesa, uma linda e querida princesa, tenho a certeza que irás continuar a cativar todos à tua volta.
Obrigado “I”, obrigado pela paz que me transmitiste. Hoje vou sereno para o mundo dos sonhos.
Beijinho,

Jorge

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os lugares da minha vida

Nos últimos dias estive de férias na cidade de Valência, sul de Espanha. O maior elogio que posso fazer à cidade é que era capaz de me ver a viver lá. Cidade grande, mas tranquila, com um centro histórico acolhedor e lindíssimo. Com dois ex-líbris a não perder, a Cidade das Artes e Ciência e o Bioparc. Admito que surpreendeu-me mais este último.
De resto, mais uma cidade em que se vive Espanha em todo o seu esplendor…ruas movimentadas a toda a hora, principalmente após as 16 horas. Esplanadas cheias em dias da semana. Tapas (como as adoro), as cañas ou um bom rioja. Praias até perder de vista, esplanadas à beira mar relaxantes com música a animar.
Ao voltar a viver isto tudo reparei nas saudades que sentia disto, de pequenas coisas que os sete anos e pouco que estive nesse país me proporcionaram. Lembro-me de sair de fazer noite e ir descansar para a praia. Lembro-me do “ir de tapas” com os amigos, com mesas faustas com os mais variados tipos de comidas, deliciarmo-nos nas esplanadas durante umas 3 horas a comer e a beber. Lembro-me de ter vários cafés onde ir, cada qual com as suas características e e decorações singulares. Apenas não sinto saudade da música espanhola porque essa segue a ser presença assídua no youtube ou no carro. Posto isto, sem dúvida que Pontevedra será sempre um dos meus locais, aquela cidade que sempre que lá vá posso dizer “sinto-me em casa.
Nos anos que passei em Espanha, senti sempre vontade de dar um salto àquela que foi a minha segunda casa…Viana do Castelo. Porquê? Porque sentia falta de passear no centro histórico ou na marginal junto ao rio. Sentia falta de ir ao meu shopping (apenas abriu no meu segundo ano em Viana e transformou a cidade). Sentia falta das bolas de Berlim do Natário ou dos croissants com creme da Caravela. Sentia falta de passear na Praia Norte, de tomar lá um café ou de almoçar no Scala…talvez o restaurante, sem ser chic, onde me sinto mais à vontade, com um espaço bastante agradável e grande variedade de pratos. Sentia falta da minha ESENFVC, o local que me deu as bases para ser o enfermeiro que sou hoje e onde conheci e criei amizades para a vida. Sem dúvida que Viana será sempre um dos meus lugares de eleição, onde quando chego posso dizer “cheira-me a casa”.
Contudo, há um lugar que, estando em Viana ou em Pontevedra, sempre me atraiu de volta, como um íman que prende o metal. Fafe, a terra que me viu nascer e crescer, a terra que me viu abalar dela para estudar e mais tarde trabalhar. Admito que gosto de Fafe porque sou daqui. Apesar de achar que é um sítio agradável, não me custa admitir que possa ser difícil para muita gente ter que vir viver para cá. As cidades muito pequenas são aprazíveis, quase sempre, para quem é originário da terra. Além de ser a minha origem, tenho família (o bem do qual mais falta sentimos quando não temos por perto), tenho grandes amizades, das mais antigas às mais recentes (como é ótimo desfrutá-las diariamente), tenho a casa onde trabalho (e onde me sinto em casa) e tenho a minha segunda família, o Karate. Quando disse a alguém que me via a viver em Valência essa pessoa disse-me “E porque não ficas?” A minha resposta sem pensar foi “E os “meus” meninos do Karate?”

São três os lugares que me fazem sentir em casa, mas apenas um é a minha casa…Fafe. Por isso, posso ir passar uns dias seja a onde for, dentro ou fora do país, mas com a firme certeza de ter viagem de volta.





terça-feira, 25 de abril de 2017

Uma responsabilidade chamada “Liberdade”

Comemoram-se hoje os 43 anos do 25 de Abril de 1974, a inesquecível Revolução dos Cravos. Um movimento que devolveu a liberdade a um povo que vivia esganado pelas mãos de ferro dum regime tirano.
Passado tanto tempo olhamos para trás e para o ponto onde estamos e só podemos admitir que alguma coisa falhou. É verdade que vivemos livres. É verdade que, apesar de crises e mais crises, as condições de vida são muito melhores hoje em dia. É verdade que estamos melhor que na ditadura, antes que alguém me venha dizer que não sei do que falo…e seria verdade, pois não vivi na ditadura.
Mas o ponto é mesmo este, daqui a alguns anos, haverá pouca gente que tenha pertencido a essa era. Não haverá quem nos diga “Vá, não sabes o que dizes, o que nós passamos na ditadura era muito pior!” Por isso, mais que dizer o mau que era viver antes, a preocupação deveria de ser a de transmitir valores, princípios e ideais que se prolonguem no tempo.
Podemos começar pela classe que nos governa, em que tudo vale para chegar às cadeiras do poder, cadeiras essas que dão direito a tudo menos a uma coisa…nunca há responsáveis por gestão danosa dum país. Sentam-se nelas de peito feito e a gritar ao mundo as suas qualidades, saem delas de fininho, esperando empregos (nunca trabalho) de ordenados insultuosos. Apesar de várias cores, a ideologia é a mesma neles todos, disfarçando-a com hipócritas eleições.
Porém, quem nos governa é a imagem da sociedade que somos. A falta de escrúpulos e de educação que se vê na política é a mesma que se vê diariamente. Seja no futebol, em que dizemos ser dum clube e odiamos os outros. Em que um adepto do clube adversário não pode entrar num estádio com adereços do seu clube (gritem agora, viva a Liberdade). No dia-a-dia, em que vemos constantemente selvagens ao volante, a vociferar contra tudo e contra todos, colocando vidas em risco. Em qualquer serviço, exigindo qualidade máxima quando somos clientes, reclamando de exigências absurdas quando somos os prestadores do serviço. Temos trabalhadores que se queixam do trabalho que têm, temos desempregados que adoram estar desempregados (viva a liberdade).
Temos uma sociedade cada vez mais respeitadora dos direitos dos outros, seja jovens ou adultos. Vê-se isso nas caixas dos hipermercados com grávidas quase em trabalho de parto a terem que ouvir bocas por usufruírem dum direito que lhes assiste. Direito esse que as meninas das caixas, muitas vezes a medo, é que fazem cumprir. Vê-se nos transportes públicos, em que vemos jovens cansados sentados e idosos fortes nos lugares em pé. Vê-se nas urgências, em que pessoas numa situação delicadíssima de pulseira verde insultam todo o mundo por uma pessoa de pulseira laranja entrar primeiro, após ter chegado depois delas. Vê-se isso nas salas de aula, que acolhem pequenos selvagens para os educar, mas como educar se em casa se mantém a selva? Vê-se na desculpabilização por parte dos pais em relação aos comportamentos repugnantes que os seus filhos têm. Seja como for…viva a liberdade.
Há uma desculpa para isto tudo…”os tempos mudaram”. Claro que mudaram e burro é quem não se adapta às mudanças. Contudo há uma coisa que não mudo, aquilo que acredito, os meus valores e, acima de tudo, o meu sentido de justiça.

Ter liberdade não é a mesma coisa que saber viver em liberdade. E essa foi a maior responsabilidade que o 25 de Abril nos trouxe e com a qual falhamos redondamente. Somos livres, mas eternamente prisioneiros da nossa irresponsabilidade…apesar de tudo, viva a liberdade!








quarta-feira, 22 de março de 2017

Parabéns Mãe

Foi em ti que eu existi
No teu ventre carregado
Até chegar o momento esperado
Em que para o mundo nasci.

Com enorme paciência
Foste esteio da minha educação
Fazendo de princípios e valores ciência
Guiados sempre pelo coração.

No teu colo aconchego
Nas tuas mãos segurança
Na tua voz carinho
No teu olhar amor.

Em ti tudo isso continuo a encontrar
Em ti tudo isso continuo a admirar
Em mim tudo isso transmito
Quando aos outros assisto.

És o exemplo inconsciente
Que me fez ser enfermeiro,
Agora ciente vejo
Esse meu jovem desejo.

Hoje o dia teu deve ser
Mas um dia apenas injusto seria!
Para tamanho merecer,
Nem todo o ano chegaria.

Desejo-te um feliz aniversário!
Beijinho,

Jorge