terça-feira, 18 de julho de 2017

Um ano intenso

Termina agora o meu segundo ano como instrutor de Karate, mais um ano de grande aprendizagem, de muito trabalho e enorme satisfação.
Destaco, logo em primeiro lugar, o crescimento relativamente ao número de alunos. Pode-se dizer que o Karate está na moda, cabe-nos a nós, atores principais desta arte, fazer que esta afluência atual se mantenha e que, mais importante, fazer com que quem venha fique.
Posso dizer que a turma deste ano exigiu muito de mim, com muitos avanços e recuos, com algumas frustrações por não ver os resultados pretendidos no tempo esperado. Foram muitos os treinos em que verificava que o que parecia assimilado afinal não o estava ou treinos em que finalmente se portavam todos bem e no seguinte voltava tudo à estaca zero.
Foram vários os momentos de reflexão e estudo sobre quais as estratégias usadas e a usar. Sempre fiel aos meus princípios (e aos da nossa escola) naquilo que considero que deve ser um formador de crianças. Sempre exigente no princípio mais básico que deve orientar uma sociedade…o respeito pelos outros.
Foi um ano em que os pequeninos do ano passado continuaram a sua evolução, com um crescimento a todos os níveis notável, sendo um exemplo para os que acabam de chegar.
Também foi um ano intenso para os nossos competidores, com um objetivo bem definido. Deram no duro, sacrificaram-se, tiveram dúvidas, choraram com as dores, com os contratempos, mas nunca viraram a cara à luta. Foram grandes Karatecas. E os resultados foram aparecendo, fruto de todo o trabalho desenvolvido. A alegria deles foi a alegria de quem os viu crescer ao longo do ano.
Claro que todas as dificuldades foram atenuadas por ter ao meu lado duas pessoas que contribuem diariamente para o meu crescimento enquanto formador de crianças e karateca. Tudo se torna mais simples quando temos pessoas que comungam connosco a mesma filosofia, os mesmos princípios e os mesmos objetivos.
Foi mais um ano a comprovar que o objetivo primordial do Karate não é formar campeões de medalhas ao peito. É fantástico ver pequenos guerreiros a ultrapassarem as suas dificuldades, a tornarem mais fácil o que antes era impossível. Neste final de época, sou alguém que acredita plenamente que todos os miúdos têm alguma coisa a ganhar com o Karate. Certeza tenho que quando alguém pensar em desistir, eu não desistirei dele. No dia em que desistir de um aluno, será o dia em que irei pendurar o kimono e dar lugar a outro.

A todos umas ótimas férias…espero-vos em Setembro. OSS!



terça-feira, 11 de julho de 2017

Duas pequenas heroínas

Ontem desloquei-me para mais um treino, mais um treino a promover a arte a jovens desconhecidos, inserido no programa de férias desportivas. Algo que me tem chamado muito a atenção nestes treinos, é o incrível interesse que as crianças têm pelo Karate, pelo treino em si e a disciplina que apresentam.
Falamos de crianças dos 6 aos 12 anos, crianças que nunca tinham contactado com o Karate e que assimilam rapidamente os passos iniciais desta arte…saudação, respeito pelo Sensei e pelos colegas, entrega ao treino etc. Quando assim é, dá real gosto dar um treino, não cansa e o tempo passa a voar. Fazem corar de vergonha muitas crianças já crescidinhas, que não sabem estar e, sinceramente, para as quais cada vez tenho menos paciência.
Ao alinhar as crianças verifiquei que uma delas era portadora de Síndrome de Down. Nunca tal me tinha sucedido, mas não fiquei intranquilo. Um defeito meu, que vou aprimorando nesta minha curta vivência como treinador, é acreditar que posso tirar sempre alguma coisa de todas as crianças, tenham elas os problemas que tiverem. Por isso iniciei o treino ansioso por ver a resposta que a menina me ia dar. Fez o treino todo sem se notar qualquer diferença para os colegas, até executando muito melhor do que outros.
Ao iniciar o treino, reparei também que uma aluna estava sentada, sem fazer o treino, por indicação de uma responsável por eles. Não sabia o motivo, mas é normal haver sempre algum doente, logo não dei importância. Com o decorrer dos exercícios, a menina levanta-se e começa a correr e a repetir os movimentos que eu fazia. Uma corrida desequilibrada…um esboço dos movimentos. Uma voz muda, mas um olhar que tudo dizia. Percebi que era uma aluna com alguma coisa parecida a paralisia cerebral.
Uma colega dela, rapidamente e preocupada disse-me “Ela não pode treinar!” Perguntei o porquê e a resposta foi “É deficiente”. Tranquilizei a rapariga e disse-lhe que era eu a dar o treino e que, enquanto assim fosse, ela ia treinar. Como podia eu negar o treino à pessoa que mais interessada nele estava?

Foi, talvez, dos treinos em que mais aprendi. São estas alturas que me ensinam a relativizar, a relativizar os meus “problemas” ou a relativizar a importância que damos às coisas sem valor. Aquelas duas meninas são, para mim, um exemplo de querer e de superação, são minhas heroínas.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Vida em suspenso

Lembro-me, como se fosse hoje, do preciso momento em que decidi que ia emigrar. Por muito que se diga que se está na disposição de emigrar, nunca o temos tão presente como o instante em que nos dizem “começas dia x”.
Nesse dia, a fazer nos próximos dias nove anos, mais um dia num trabalho que gostava, mas que não era o meu, recebi a tal chamada do país vizinho. Não havia muito que escolher, não havia muito que pensar. Havia, isso sim, um sonho por cumprir, que ao mesmo tempo era a maior das minhas dúvidas…será que nasci para ser enfermeiro? Por isso, não houve hesitação na hora de aceder ao chamamento, o que não significa que não houvesse medo, insegurança e as tais dúvidas.
Sei que fui para relativamente perto, antes que digam que fui um emigrante de vida fácil. Sim, Pontevedra é aqui ao lado, Espanha é o país nuestro hermano, dizem que a língua é fácil etc. A minha opinião é que fácil é quando vamos como turistas e que a língua se parecer muito à nossa foi mais entrave que facilitador. Sabem quando se fala que nós percebemos tudo o que eles dizem, mas eles não nos percebem? Anda muito longe de ser mito. Agora imaginem não nos conseguirmos fazer entender no local do trabalho, quando o relacionamento humano é fundamental, ou numa qualquer repartição pública, como finanças ou segurança social (ir lá em Portugal já é um bicho de sete cabeças).
Nessa linda Pontevedra, cresci como enfermeiro e como homem. As dificuldades que senti no início foram desaparecendo, devagar, mas cada vez menores. O local de trabalho deixou de parecer uma casa assombrada passando a ser uma segunda casa, a cidade passou a ser a minha cidade.
Tive momentos felizes nos sete anos em que estive fora do país, mas não posso dizer que o era realmente. No momento em que decidi ir para lá foi o momento em que suspendi a minha vida, de sonhos e de projetos.
Nunca escondi o desejo de voltar ao meu país, sabia que haveria coisas que o podiam impedir, logo pus de parte os meus sonhos mais íntimos. Quando me meto em algo, meto-me a cem por cento, logo o viver num limbo entre dois sítios (Fafe e Pontevedra) foi sempre impeditivo para assumir outras coisas. Num trabalhava, noutro matava as saudades da família e do que me fazia falta.
Sei que isto é uma maneira muito minha de ver a vida, não um perfil linear a todos os que emigram.
Foi há quase dois anos que a minha vida recomeçou a fluir. Voltei a sorrir dentro de mim, permiti-me projetar e sonhar novamente. Não sendo a vida uma permanente felicidade, não deve ser uma constante resignação. Vivo feliz, aqui no cantinho que me viu nascer e crescer, procurando ajudar a sociedade na qual me insiro com o meu grãozinho de areia.

Permitam-me responder à pergunta que fiz no início deste meu devaneio, não, não nasci para ser enfermeiro. Simplesmente adoro o que faço e ser enfermeiro vai muito além das paredes do serviço onde trabalho, permanece em mim mesmo depois de despir a farda. E isto…devo à oportunidade que me deram, há quase nove anos, do lado de lá da fronteira.