quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Adeus, meu contador de Histórias!




Terça-feira, por volta das 10h, dia cinzento, chuvoso…prenúncio do que se avizinhava.
Quando já me preparava para dormir, para descansar de mais uma noite a trabalhar e para me preparar para outra noite mais, recebo um telefonema nada normal e algo inesperado. A normalidade tem destas coisas. Quando alguém nos habitua a algo, quando esse alguém faz algo fora dessa normalidade, é quase sempre mau sinal. A minha mãe telefonar-me a essas horas da manhã nada de bom anunciava…”Jorge, o avô morreu!”.
Qual seta que se nos entranha na pele, algo tão inesperado dói bastante, deixou-me atordoado sem saber bem o que fazer. Como é possível? Andava bem! Se bem que a minha experiência me diz que o andar bem não quer dizer nada. Mas o inesperado custa a entender mais que o esperado.
A partir daqui não vou entrar em detalhes. Foram dois dias complicados, não o posso negar, ausente de quase tudo, centrado na minha família. Tentei ser forte, não o sabendo se consegui. Agradeço as mensagens e os gestos de apoio que recebi, sem dúvida alento enorme para olhar em frente.
Nunca falei muito do meu avô. Não por gostar pouco dele, nada disso. Foi um homem que aprendi a admirar à medida que fui crescendo. Nunca foi de gestos carinhosos, nunca foi de dar prendas, mas gostava dos netos.
Homem duro, porque a vida o fez duro. Feitio complicado, como muitas pessoas neste mundo. Agarrado ao que é seu, sem dúvida, mas isso pode ser algo difícil de entender nos dias de hoje, em que um crédito nos ajuda a ter o carro ou a casa que desejamos.
Aos 85 anos, o meu avô criou 5 filhos, estão todos mais ou menos na vida, e conseguiu deixar-lhes um património que não é fácil de encontrar hoje em dia. Parte disso pode ter vindo de herança também, mas o meu avô trabalhou sempre muito para conseguir tudo o que tem.
Antes dos 30 anos foi para o Brasil. Viagem de barco, nada a ver com as idas turísticas que se fazem hoje em dia. Um homem do campo profundo, de um país atrasado, não é fácil chegar a um país novo e porque não, mais desenvolvido. Andou durante muito tempo a transportar pedra de gelo de 100kg numa bicicleta. Viu a mãe falecer estando do outro lado do Oceano. Passou por dificuldades e voltou. Casou-se com a minha avó, 5 filhos nasceram. Muito trabalho no campo, muita vida dura. Pelo que me dizem uma coisa é certa…não havia fartura, mas também não passaram fome. Mais tarde, para combater a miséria e conseguir algo mais, nova saída do país, desta vez para a fria Alemanha. Lá trabalhou na construção civil. Percebem a admiração que tenho por ele? Alguém que apenas estudou na universidade do campo, da agricultura, conseguiu sempre adaptar-se a diversas situações. Se não me engano, foram 14 anos lá. Conseguiu assim fazer a sua casinha nova (um casarão na altura), com dinheiro seu, com o seu trabalho (sim, foi ele que a fez), sem ajuda de bancos e empréstimos.
A casa onde eu passei muitos momentos da minha infância e que agora ia sempre que me era possível. Hoje, como sempre acontece, gostaria de ter passado por lá mais vezes.
Apesar de já não conseguir trabalhar no campo, que o fez até perto dos 80, ia fazendo a sua vida (com alguma ajuda), mas sem se render ao descanso mortal que a cama oferece a partir de certa altura. O meu avô sempre lutou contra isso. Andava devagarinho, mas pressa também não havia.
Sei estas coisas e muitas mais, algumas pelo que o meu pai contava, mas a maior parte delas ouvidas directamente da boca do meu avô, nas inúmeras horas que passei desde a minha infância a ouvi-las. Muita gente o criticava por repetir as histórias, mas eu não me importava. E o que mais me espantava é que, quando eram repetidas, os detalhes eram exactamente os mesmos, as mesmas palavras. Por isso digo que o meu avô era e é o melhor contador de histórias que conheci…é certo que era a sua história de vida, com marcas bem profundas na sua memória, mas sempre as contava da mesma maneira.
Não era um homem perfeito. Feitio muito complicado, machista, algo racista, podem até dizer agarrado…mas eu gostava dele. Ele não tem culpa da época, da cultura e da educação em que cresceu. Ele foi moldado pela vida desta maneira e mesmo tendo muitos defeitos, foi um homem de família com todas as virtudes que isso implica.
No meio da tristeza que me invade neste momento, fico feliz por ele nunca se ter rendido, nunca ter virado a cara e por não ter sofrido muito para partir.
Os netos não o puderam acompanhar em grande parte da sua vida, mas fizeram questão de o levar até à sua última morada. Forma de lhe mostrarmos todo o nosso respeito, carinho e amor.
Com saudade, lágrima a cair-me e de coração apertado…até sempre Avô!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

...

Longas horas de espera...sei que vai correr bem, mas quando a saúde dos nossos está em jogo há sempre preocupação.

Sei que estavas nervosa ao sair de casa, entendo o quereres deixar a casa toda no seu sítio antes de saíres...entendo, mas não faz sentido! Logo estás aqui de novo.

Preferia estar junto a ela, não sei, não entendo porque não o permitem...mas vai correr bem...tem que correr bem!

Daqui a umas horas já passou...não te precupes Mãe, vai correr tudo bem! Até já! Beijinho

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Algo sobre Enfermagem...

Sei que nos últimos tempos tenho escrito pouco acerca da minha profissão. Não que tenha deixado de gostar de escrever sobre ela e muito menos de ser enfermeiro. Só que apesar de passar um momento muito positivo da minha vida, fico triste com o que tem acontecido. Atenção, não ando triste, fico triste só no momento de ler as notícias.
Nos últimos dias são às centenas os enfermeiros a ficar sem emprego em Portugal devido à não renovação de contratos. Sei que estamos em crise, sei que nestas alturas os trabalhadores trabalham mais para suprir necessidades dos serviços em relação à mão-de-obra! Admito que não se contrate mais pessoal…não concebo é que se mande enfermeiros que fazem falta aos serviços para a rua!
Tínhamos um Serviço Nacional de Saúde carente em enfermeiros…agora ainda pior!
Preocupa-me porque vamos entrar num período em que coisas más vão acontecer às pessoas por falta de atendimento! Não culpem é os profissionais de saúde que não têm mãos a medir. Não culpem os profissionais por uma pessoa passar horas à espera numa Urgência…eles têm que atender os casos consoante a gravidade. Se são poucos a trabalhar, o atendimento vai demorar ainda mais. Não é que não queiram atender…não é que não tenham nada que fazer…simplesmente não podem fazer mais! Está perigosamente a aproximar-se a falência do SNS tal como o conhecemos
E quando falo em profissionais não falo só dos colegas enfermeiros, falo de todos os constituintes da equipa multidisciplinar. Dou mais ênfase aos enfermeiros, porque além de colegas são os primeiros a sofrer na pele estas medidas…além do facto de serem dos profissionais de saúde aqueles que há muito tempo têm piores condições contratuais…quer a nível de salário, quer a nível de estabilidade.
Por isso não tenho falado muito sobre Enfermagem…por isso ninguém me pode levar a mal o facto de dedicar o meu tempo à pessoa que me faz feliz e que me faz viver um pouco afastado deste estado depressivo da nossa profissão!
Enfermagem para mim neste momento chega-me a que pratico no meu dia-a-dia como enfermeiro…fora do trabalho quero ser feliz ao lado da pessoa que amo e das coisas e pessoas que dão alegria à minha vida.

sábado, 22 de outubro de 2011

Parabéns "J"

Hoje faz anos a minha outra princesa...ainda ontem estava contigo ao colo e hoje já tens 17 anos e estás uma mulherzinha!

Para a minha afilhada "J", um beijinho do tamanho do mundo e lembra-te...por muito tempo que esteja sem ver-te, nunca te esqueço!Adoro-te!

Os olhos que vêem mais além...

Há cerca de 4 semanas e meia fui operado ao olho esquerdo, o principal responsável por eu usar óculos desde os 9 anos. Operação a laser, rápida e indolor...e resultado final, não preciso de usar óculos nos próximos tempos!

Contudo, o que eu pensei ter sido uma mera operação aos olhos, sei hoje que foi muito mais que isso...não fiquei a ver bem apenas dos olhos...o meu coração voltou a ter a visão que havia perdido há algum tempo! Voltou a ver sem qualquer sombra a felicidade que teimava passar por mim sem eu dar conta.

Hoje em dia vejo bem, contemplo maravilhado, como uma criança, todas as cores da vida, da felicidade, da paixão...do amor!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Doente terminal...

Antes de escrever o que quer que seja, aviso desde já que isto é um mero texto de opinião, em nada fundamentado em bibliografia, apenas na minha experiência adquirida no meu trabalho ao longo destes três anos. Por isso não usem nada do que aqui é dito para teses de mestrado nem trabalhos universitários!
No meu serviço temos muitos doentes na fase final da vida, muitos velhinhos.
Depois de três anos aprendi que cada dia deles pode ser o último, mesmo aparentando estarem bem. Aliás, todos nós somos doentes terminais, podemos é estar mais perto ou não do fim.
Lá no serviço tenho os tais doentes apelidados de “terminais”, que têm doenças incuráveis. Contudo, alguns deles estão lá há muito tempo e conseguem levar uma vida aparentemente normal, resistindo mais que alguns que nenhuma doença terminal tinham.
Contudo, às vezes chegam-nos doentes, e em muitos casos pessoas jovens entre os 50-60 anos (tendo em conta a idade dos doentes que lá temos), que estão em fase terminal e não resistem muito tempo. São estes casos que me proporcionam a visualização da fragilidade humana e o quão devastadoras podem ser algumas doenças.
É estranho ver uma pessoa chegar lá a caminhar pelo próprio pé, a fazer uma vida normal praticamente e num dia sente-se um bocado pior…no dia a seguir está acamado e se as coisas forem bem-feitas, sedado e dormindo à espera que chegue o momento.
As pessoas perguntam-me se não me custa viver isto. A sério, não me custa. Não me custa saber que estou a proporcionar uma morte digna a uma pessoa. Uma passagem tranquila e sem sofrimento para outro lado. Custa-me isso sim, é ver pessoas a sofrer desnecessariamente porque ainda há quem diga que cuidados paliativos são eutanásia. Já tive doentes em agonia (e para mim agonia é dor agitação, intranquilidade, sofrimento) e eu sem nada poder fazer porque ainda há questões legais e hierárquicas a respeitar.
Às vezes parece que as pessoas aprendem e fazem tudo como deve ser…mas no caso seguinte voltam a andar para trás. Não há coerência…e quem paga são os doentes e em menor escala, quem passa os turnos junto a eles de mãos atadas, querendo, mas não podendo fazer nada.

Enfermeiros…activos e passivos

Bem, nos últimos tempos ando numa fase de enamoramento absoluto e até parece que não faço mais nada…quase isso! Perdoem este tonto apaixonado, mas a pessoa responsável por este meu estado merece isto e muito mais…
Bem, apesar de tudo, a verdade é que continuo a trabalhar, continuo a ser o mesmo enfermeiro que sempre fui, dedicado à causa e procurando sempre o melhor para os meus doentes. Posso andar aluado, mas tenho-me como alguém responsável e ciente do seu dever.
O meu serviço, fazendo a analogia com o sistema de saúde português, pode-se dizer que é algo do género de uns cuidados continuados, com algo de medicina ou geriatria, mas com menos recursos…o que às vezes obriga a um pouco mais de imaginação. Sempre me falaram que um enfermeiro devia ser imaginativo, criativo até, e sempre me assustou, pois nunca pensei que o seria. Hoje em dia creio que o sou, tal e qual como algumas colegas que comigo trabalham, e talvez mais do que muitos enfermeiros que me orientaram em estágios, onde o material e as condições “sobravam”.
Acreditem, nenhuma das minhas professoras era capaz de trabalhar onde estou, pois o mais certo era criticarem tudo e mais alguma coisa, aquilo ia dar-lhes um nó na cabeça, e acabavam por não ser aquilo que dizem ser…enfermeiras.
Um enfermeiro tem que ser isso mesmo…um enfermeiro. O meu serviço não é perfeito, não é um local “esterilizado” ou “imaculado” sobre o ponto de vista do que aprendi na escola e de todos os locais por onde fui passando em estágio (ou quase todos). Mas isso não interessa para prestar os cuidados de enfermagem. Onde estou, nunca ouvi dizer nem disse “Não se pode fazer isto porque não temos material para isso” Isso sim, já ouvi dizer e disse “Não temos material indicado para isso, mas vamos ver o que se arranja!” Eu não me formei para criticar…mas sim para ter sentido crítico. E ter sentido crítico é saber às vezes ter a noção que “não é possível ter mais do que o que tenho, vou ter que me desenrascar com isto”, ao contrário da crítica fácil e nada construtiva “não faço isto porque não tenho coisas para fazer mais”
Atenção, sou uma pessoa que reivindica sempre mais e melhor para o serviço onde estou, pois sei que pedir não custa e às vezes lá se vai conseguindo melhorar um pouco o que se tem…mas não deixo de fazer o meu trabalho.
O importante é termos os princípios todos metidos na nossa cabecinha…e a partir daí tentar aplicá-los na medida do possível…e esta é a questão…quando não consigo manter os princípios nada faço ou, sabendo que não os consigo cumprir, faço o que creio ser necessário para o doente? A minha prioridade é e será sempre a necessidade imediata do doente. Daí eu ser enfermeiro, daí eu praticar enfermagem…ao contrário de muitas pessoas que andam a “pregar Enfermagem”.