domingo, 5 de novembro de 2017

Moinho de Vento

Movido pelas monstruosas aragens
Das serras miradouro
De magníficas paisagens
De Fafe é tesouro.


Seus longos braços de madeira
Pela brisa aguardando
Parecendo de brincadeira
Vão pouco a pouco trabalhando

Desafiador de tempestades
Dos cereais escultor
Do moleiro protetor
Tempos que deixam saudades.



Hoje, abandonado no sopé
Numa vida de solidão
Esperas caminhantes a pé
Para que vejam a tua dimensão!


terça-feira, 24 de outubro de 2017

O atrevimento do indecoro

Não, não me vou atrever a falar sobre os incêndios…sinto-me demasiado envergonhado para falar disso, por pertencer a um país que trata com leviandade futebolística e partidária um tema que tira vidas a portugueses iguais a mim.
Depois de acontecer o impensável, aconteceu o impossível (primeiro indecoro). Bem verdade quando se diz que o impossível só o é até aparecer quem o torne possível. E nisso temos os melhores do mundo a fazer acontecer as piores coisas impossíveis. Temos a classe política mais incompetente, mais desumana, mais sem vergonha que possa existir (mas talvez a mereçamos…).
Após o sucedido apenas havia algo que se poderia dizer aos portugueses e às vítimas desaparecidas…“Desculpem”. Ao invés disso assisti, incrédulo, às declarações do Sr. Costa (segundo indecoro). Acredite que muito me custa chamar-lhe senhor, não merece, não é digno sequer de ser apelidado de pessoa. Não é homem para ocupar o lugar que ocupa, pelo discurso, pela inércia, pela falta de humanismo, pela arrogância, pela maneira como escolheu de subir ao poder.
Depois temos a Constança, de uma inconstância descomunal (terceiro indecoro). Fala a pobre mulher que não teve férias. Deixe-me que lhe diga, podia ter ido que não se teria dado pela sua falta.
Temos os do poleiro, que lançam as culpas para cima dos que lá estiveram e para a população, como se não fosse nada com eles (quarto indecoro) …apenas a recuperação fantasma do país se deve a eles.
Temos os que estiveram no poleiro e já não estão, a apontar o dedo como se em nada tivessem contribuído para o estado de calamidade verificado (quinto indecoro).
Temos Portugal no seu melhor, em que a culpa sempre morreu solteira. Esta impunidade que se vive na política simplesmente enoja-me, não há outra palavra que expresse melhor o que sinto.
Depois vem o pior de tudo. Eu dos políticos já tudo espero, já nada me espanta. O que me espanta é muito boa gente vir a poleiro defender o indefensável (sexto indecoro). Quando se devia ser firme e intransigente com todos os responsáveis pelo que aconteceu (que não são apenas deste ano), pelas vidas perdidas, para alguns elas são admissíveis dependendo da cor política que governe. Vêm com paninhos quentes, vêm dizer que são situações inesperadas (para quem é inesperado algo que acontece ano após ano?), que não se podem controlar, etc. Sabem, também me enoja esse tipo de discurso…profundamente.
Depois há as manifestações solidárias para com os bombeiros, com os donativos em bens e dinheiro, no apelo a que todos devíamos ser associados etc. Já refleti muitas vezes a minha opinião sobre os bombeiros, admiro imenso o papel deles, admiro mesmo, eu não o faria. Em pleno século XXI não acho que seja admissível, para uma profissão tão exigente, o voluntariado. Em tempos que se exige profissionalismo máximo na mínima das profissões, esta não pode seguir nas mãos da boa vontade. Tem que se dotar os bombeiros de condições para que possam exercer a sua profissão de forma segura, para eles e para os outros. Seria algo que traria maior responsabilização aos profissionais em causa, mas repito, sendo profissionais estariam em muito melhor posição para o assumir. Ou será que ainda temos os hospitais cheios de freiras a prestar cuidados de enfermagem? Nada contra as senhoras que o fizeram e ajudaram na evolução da profissão, mas os tempos e exigências mudaram.
Para finalizar, temos as árvores que de repente nos lembramos de plantar, em vez de dar brinquedos às crianças e pronto, problema resolvido, nada do que se passou este ano voltará a acontecer…peço desculpa, mas, em primeiro lugar, não são as crianças que têm culpa do sucedido. Em segundo, não contem comigo para ser cúmplice no camuflar da situação.
É a hora de apontar o dedo de vez, de pedir a “cabeça” dos responsáveis, de tomar medidas que realmente mudem o panorama e nos permitam ter segurança no futuro. Brincar ao faz de conta fará com que para o ano estejamos aqui outra vez a falar do mesmo, a pedir mais donativos e associados para os bombeiros e a plantar novas árvores para substituir as que se queimaram de novo. Nem tudo é possível de substituir, nem tudo se resolve com a boa vontade de voluntários e cidadãos. As vidas humanas que se perderam e tudo que representam não voltam.
Na Galiza morreram quatro pessoas, saíram milhares à rua, aqui morreram muitas mais, milhões puseram-se online. Por isso digo, temos o que merecemos.
Temo ser uma mente perturbada, com ideias alucinogénias num mundo equilibrado e são. Talvez esteja sozinho, a falar com os meus botões num estado de muda esquizofrenia. Mas dentro da minha loucura, estou imensamente preocupado pelo mundo onde vivo.



sábado, 21 de outubro de 2017

Para ti...

Vi-te nascer,
Ainda cria inocente
Vi-te crescer,
Mulher resplandecente!

No meu colo andaste
O meu pescoço abraçaste
Na minha mão seguraste
Em mim confiaste!

Foste uma brisa outonal
Nascida no mês das folhas cadentes
Lançaste-me feitiço colossal
Como as encantadoras serpentes!

És prosa do meu pensamento
Poesia do meu sentimento.
És beleza que encandeia o meu olhar
És causa do meu suspirar.

És flor do meu jardim
Que me alegra a visão
Um amor que não tem fim
Sangue do meu coração.

Parabéns querida Joana! Sê feliz, hoje e sempre.
Beijinho,

Do Padrinho

sábado, 14 de outubro de 2017

Cara Bastonária

A Enfermagem vive momentos de grande agitação, com grande mobilização dos seus membros em busca de um caminho de dignidade e valorização profissional.
No meio deste alvoroço surgiram os habituais sindicatos, uns aproveitando a união da classe para bradarem bandeiras, outros colocando-se, a meu ver inexplicavelmente, de lado (não ao lado) desta falange humana e, de forma algo inusual, a Ana Rita Cavaco, nossa Bastonária.
Faço um interregno nas minhas ideias para dizer o que não costumo dizer. Votei na colega nas eleições para Bastonária, digo-o não para bajular quem quer que seja, ao dizer isto apenas aumento a exigência na forma como me representa. E porque fui dos poucos que votei…e porque fi-lo em si? A colega não me conhece de lado nenhum, eu conheço-a apenas agora, depois de dar voz à nossa classe. Que me levou a votar em si? Li as ideias da sua candidatura e pareceu-me ser alguém que não esquecia nenhum enfermeiro, nem os de cá, nem os que estão espalhados pelo mundo fora. Isto no papel, claro, com o exemplo que temos das promessas políticas, o pobre sempre desconfia. Mas acreditei, talvez tenha querido acreditar que viesse a ser verdade. A lembrar-me dos sete anos que trabalhei fora do país, abandonado pela Ordem, tal como os meus demais colegas.
Após atento seguimento das suas intervenções em diversos meios, a prova de fogo chegou no dia “B”. E o que vi, o que todos vimos, foi um Basta nas dúvidas que pudessem haver sobre a Ana Rita Cavaco. A colega é, neste momento, a nossa líder, a nossa principal defensora, é mais uma nas batalhas que a Enfermagem trava atualmente.
A nossa Bastonária, antes dos dias da manifestação, foi alvo de vários ataques, internos e externos. Acusaram-na de ser sindicalista…eu acuso-a de ser mais uma Enfermeira. Mal seria se o papel da nossa representante máxima se limitasse a dizer o que não vai bem…e não o sentisse. Como o sente, simplesmente tinha o dever moral de acompanhar, lado a lado, os milhares que se manifestaram…como o fez.
Dias mais tarde, novos ataques internos desesperados e sem sentido de oportunidade…e aqueles que por si são defendidos saíram em bloco em sua defesa. Finalmente, após anos (eu após nove anos) de uma Ordem desordenada nas suas intenções, temos uma Ordem que luta pelos seus, mesmo por aqueles que insistem em mostrar mal-estar por não estarem no lugar da colega.
Ana Rita Cavaco, parabenizo-a pela postura que tem tido desde que assumiu o cargo, apesar de nem sempre concordar com o modo como terá feito ou dito certas coisas, mas não é a mim que tem que agradar e o meu ponto de vista nem sempre será o mais certo. Contudo há algo que lhe reconheço independentemente dos métodos, luta pela Enfermagem, não pelo cargo. Não sendo dos que defendem que “falem bem ou mal, o que interessa é que falem”, acredito que não podemos ficar calados com receio da reação do resto do mundo. E a Ana Rita Cavaco não tem medo, deu voz ativa e válida à nossa profissão.
Espero que, no dia em que dê o lugar a outro/a, as minhas palavras mantenham esta índole. É um desejo sincero, porque acho que o que fez neste pouco tempo em que assumiu o cargo não merece outro desfecho.
Não deixou de ser Enfermeira para ser Bastonária…ah, cara colega, e de que maneira nós precisávamos duma Bastonária Enfermeira.

Um sentido abraço…pela Enfermagem.

domingo, 24 de setembro de 2017

A vida é feita de decisões

Não sei se será defeito ou qualidade, mas uma das coisas que pauta a minha vida é a certeza do que quero e do que não quero. Mesmo quando as decisões são difíceis, com muitas mudanças em jogo, se é algo que eu quero ou não quero sei bem qual vai ser a resposta.
Foi isso que me guiou em duas das decisões mais difíceis que tive de tomar. A primeira delas há pouco mais de nove anos, quando me chamaram para trabalhar em Pontevedra. Era jovem, com curso acabado há um ano e um sonho por cumprir. Talvez não fosse um sonho, antes um objetivo. Seria hipócrita se dissesse que gostava da Enfermagem logo após acabar o curso, não o sabia e tinha muitas dúvidas se conseguiria ser enfermeiro. Mas tinha que o saber, após anos de estudo e de sacrifício dos meus pais.
Desse modo, ao receber a chamada, sabendo que aquela era a única saída dignificante naquele momento, prontamente disse que sim. Sabia que esta resposta iria tirar-me da minha zona de conforto, que iria proporcionar-me o maior desafio da minha vida. Sabia que me ia fazer perder, sem saber o que ia ganhar.
E assim foi, novo trabalho, nova cidade, novo país, novos costumes, nova língua. Uma experiência que eu esperava ser curta, durou pouco mais de sete anos. Anos em que cresci como nunca tinha crescido antes, em todos os aspetos da minha vida. E passados todos esses anos, quando talvez menos o esperasse…uma nova chamada.
E tal como sete anos antes, pouca hesitação na hora de dizer que sim, pois estavam outros sonhos por cumprir. Mas desta vez, apesar da certeza que tinha, custou muito mais. Primeiro, por abandonar o lugar que, longe de ser um sítio de trabalho fácil, me ensinou a amar a Enfermagem, que me ensinou a amar cuidar do próximo. Segundo, por abandonar as pessoas que mais de perto me acompanharam nesse tempo todo. Pessoas que vi no seu olhar surpresa e tristeza por eu sair, mas a alegria por saberem que eu ia atrás do que eu queria. Acho que é assim que vemos as verdadeiras amizades, quando se priorizam os sentimentos em função da felicidade dos amigos. As lágrimas que me caíram e que escondi, faz hoje sete anos, ao sair do meu último turno em Santa Maria, foram de profundo agradecimento por tudo o que aquele lugar me deu e, sem falsas modéstias, por reconhecer também o muito de mim que lá ficou.
Santa Maria será sempre uma das minhas casas, um local ao qual regresso sempre que posso para recordar pessoas e experiências que me fizeram ser a pessoa que sou hoje.
Faz hoje dois anos, que finalizei uma etapa da minha vida e iniciei outra. Fase esta que tem sido pautada pelo amadurecimento pessoal e profissional, dando-me ainda mais certezas do que gosto, do que quero e do que não quero na minha vida.
Ter estado fora de Fafe mais de um terço da minha existência faz-me gostar ainda mais da minha terra. Por saber que não é o centro do mundo, por saber que as importâncias do meio são insignificantes no decorrer da vida no resto do mundo, por saber que há lugares com muito mais que oferecer. Ter consciência disso, faz-me saber estar no meu sítio, dar o meu contributo em tudo o que faço, mas sem me colocar em bicos de pés.
Há dois anos regressei, não porque fui obrigado, mas porque quis. Um regresso ao conforto do meu lar, mas sem nunca esquecer que há muito mundo por descobrir…e muitas decisões para tomar sem hesitar.


(a música que traduz o sentimento pelo qual sempre tive vontade de regressar)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O último suspiro

Sou enfermeiro, sou duma classe de profissionais que estão presentes na vida de todos os utentes/doentes do nascer ao morrer.
Eu próprio já tive a possibilidade de assistir a esse maravilhoso (para alguns) momento que é a vinda ao mundo dum novo ser. Estava eu em estágio, assisti a dois partos, uma experiência que ainda hoje guardo na memória como se tivesse sido ontem.
Pelo contrário, foram já muitas as vezes em que assisti ao fim da vida, sendo o muito sempre uma palavra tão relativa…é muito para quem nunca assistiu a tal momento, será pouco para quem diariamente vê isso acontecer. Mas foram algumas.
Antes de prosseguir, reitero que tudo o que escrevo aqui, seja de que tema for, é a minha visão, a minha opinião ou a minha maneira de sentir as pessoas, os momentos ou as coisas. Poderá e não será a de outras pessoas.
Não escapando ao ciclo natural da vida, já perdi pessoas como quase toda a gente. Já vi falecer todos os meus avós, perdas muito sentidas, perdas pungentes, perdas muito saudosas. Foram partidas físicas, mas também de todas as lembranças dos momentos vividos anos a fio. Porém, foram experiências que nunca me prepararam para as perdas profissionais. Nem estas para as pessoais.
Há dois anos mudei de serviço, há mais de dois anos que não me morre um paciente. Contudo, essa não foi a minha realidade durante sete anos. Durante esses anos, já não sei dizer ao certo quantos doentes vi morrerem. Uns cujo fim era esperado, outros em que não o era.
Lembro-me, ainda hoje, das feições e do nome do primeiro paciente que perdi. Lembro-me do que foi feito, em vão, para o impedir. Foi o primeiro último suspiro que vi. Foi a primeira vez que senti o calor humano transformar-se num frio gélido, foi a primeira vez que vi olhos cheios de vida transformarem-se num olhar vazio.
É muito diferente apenas vermos um corpo inerte de vermos um corpo passar dum estado de vida para um estado de inércia. Não consigo encontrar palavras para explicar o que se sente, ou melhor dizendo, o que sinto. Há quem diga que uma pessoa se habitua. Talvez nos habituemos a ver cadáveres, agora a ver o momento exato em que a vida acaba, acho que não há quem se habitue a isso.
Não acredito em fantasmas, mas muitos dos pacientes que perdi (alguns deles com anos de convivência) vaguearam pelos meus sonhos, pelos meus pensamentos quando acordado, pelas minhas lembranças. Não sendo meus familiares, cada um deles significou para mim uma perda, por muito que as lágrimas não tenham caído. Assisti ao último suspiro de familiares de outros, esse é, talvez, o maior fardo que tive que suportar.
E não, não há nenhuma cadeira na Universidade que nos ensine a lidar com a morte dum paciente e com todos os sentimentos inerentes a ela. E não, não temos um botão “On/Off” que nos permita desligar os nossos pensamentos/sentimentos quando entramos ou saímos do local de trabalho.

O Jorge enfermeiro é o mesmo que no dia-a-dia se dedica de corpo e alma àqueles (e àquilo) de quem gosta e ama. Mas, cada vez mais, a minha profissão molda a minha maneira de ser e agir. Por muito que diga que não trago trabalho para casa, e acreditem que tento fazer por isso, é impossível que muito do que sinto e passo no meu trabalho como enfermeiro não me acompanhe para fora daquelas paredes. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Parabéns rapaz grande :)

Há 2 anos atrás, neste dia, tive a certeza que o meu tempo em Espanha estava a acabar. Fazias tu 3 anos, eu tinha vindo aqui apenas uns dias antes e tinha dito à tua mãe que não podia ir à tua festa de anos.
Só que chegou o teu dia, saio de fazer noite e fiquei a pensar…tu não ias voltar a fazer 3 anos. Fui dormir com a certeza do que faria ao acordar.
Acordei e pus-me a caminho, a caminho da tua festa e a caminho do calor da nossa família, mesmo sabendo que no dia seguinte teria que voltar. Ao chegar, o abraço que demos fez-me querer ficar, o largar-te fez-me apertar o coração de angústia.
Pouco tempo depois regressei de vez, para tentar recuperar o que não tive durante os anos fora. Com o abraçar de novos projetos/desafios nem sempre me é possível estar contigo o tempo que quero, mas agora, quando estamos juntos, não há o pensamento que nas horas ou no dia a seguir terei que abalar.
Hoje fazes 5 anos, apesar de ter ido trabalhar conseguirei ir a tua casa dar-te os parabéns. Não imaginas o que uma coisa tão simples significa. Ter qualidade de vida, acima de tudo, é poder ter estes pequenos momentos, por isso exijo tão pouco à vida. Não é falta de ambição, é saber que tenho o que já me vi privado de ter.
Estás um rapaz grande e espero continuar ver-te a crescer, sempre saudável e tão enérgico.
Hoje o dia é teu, espero que estejas a ter um feliz aniversário…até logo meu querido João!

Beijinho de parabéns do Padrinho.