segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Obrigado Sensei...até um dia

Aquelas duas chamadas por atender puseram-me o coração em sobressalto. Pressenti o que ouviria do outro lado, pressenti que o pior tinha acontecido. Encostei-me, sem forças, à parede, a ouvir a pior notícia que um amigo me deu até hoje…“Jorge, o Sensei…”…mas agradeço que tenhas sido tu meu caro, ambos percebemos o alcance do que me disseste.
A chuva lá fora acompanhava as lágrimas que me caíam dos olhos. O chão pareceu tremer…ou talvez tenham sido as minhas pernas. A voz tiritava, originada pelo frio do vazio que se criou de repente em mim.
Não caí ainda na realidade, custa-me acreditar que seja verdade. Sempre tive esperança que se alguém era capaz de sair duma situação destas era o Sensei.
Choro ao ver partir a pessoa que, a seguir aos meus pais, mais influência teve no meu crescimento enquanto homem. Não consigo descrever a importância que o Sensei Marinho teve e tem na minha vida, apenas posso dizer que foi a pessoa a quem o meu pai me confiou para guiar-me no caminho do Karate e isso diz muito. Foi Sensei, Mestre, pai…e creio que o meu não me levará a mal por dizer isto.
A mim tal como a muitos outros, formou-nos com mão dura, com disciplina e trabalho intenso, ajudou a vincar a nossa personalidade dum forte carácter. Conquistar a sua confiança, ser merecedor dela, foi talvez a minha maior conquista até hoje.
Por entre a névoa que me nubla o olhar, escapa-me um sorriso ao lembrar-me dos muitos momentos que passamos juntos. Muitos treinos, muitos jantares, muitas viagens, muitos risos e sorrisos.
O kimono esta semana pesou como nunca, aquela nossa casa, estando cheia parecia vazia. Este golpe deitou-nos ao chão, doeu e vai doer. Mas foi isso que o Sensei Marinho nos ensinou toda a vida, não ficarmos no chão depois da queda.
Continuaremos o trabalho que ele iniciou com mais força, com mais vontade, ainda com mais dedicação. Não haverá ninguém capaz de substituí-lo, o legado é enorme, mas somos uma grande família, forte, unida e juntos seremos capazes honrar a nossa História.
A dor é grande, a perda irreparável, apertam já as saudades dos tempos futuros, mas o Sensei Marinho viverá em cada um de nós. Cada vez que um de nós vestir o Gi, cada vez que um de nós pisar um tatami, carregará em si todos os ensinamentos do nosso Mestre.
Obrigado Sensei, obrigado por tudo.
Do seu discípulo
Jorge Gomes
OSS

sábado, 30 de dezembro de 2017

Velho Ano, Novo Ano


Chega ao fim mais um ano, mais um ano que se pretendia de resolução de sonhos, de projetos, de mudanças, saúde e felicidade.
Acontece que eu não acredito numa felicidade plena ou numa saúde constantemente à prova de bala, nem num mundo idílico.
Acredito, isso sim em sermos felizes ao sabermos aproveitar o que que a vida nos proporciona, em ver o que de mais belo os pormenores nos contemplam.
Eu sou feliz…
Se vejo minha família bem.
Se vejo os sucessos dos meus amigos.
Se vejo os sorrisos e gargalhadas dos meninos do Karate.
Se sinto os abraços de quem me quer bem.
Se conheço novos sítios.
Se vejo um doente a recuperar.
Sou feliz tentando fazer do meu mundo um lugar melhor para viver, vendo o que de melhor tem para me dar e não me focando nos aspetos negativos.
Por tudo que disse anteriormente, 2017 foi um bom ano que espero que tenha seguimento em 2018. Os votos com que me despedi do ano transato foram cumpridos á risca…sonhei de forma diferente, arrisquei de forma diferente, desafiei-me de forma diferente. Cortei cordas que me prendiam a um passado, passado esse que não me deixava ver o mundo com olhos de ver. Foi essa a grande conquista deste ano, que me permitiu sair da minha zona de conforto e com toda a motivação abraçar, talvez, o projeto mais aliciante e difícil que tive até hoje.
Não podia deixar de dizer umas palavras aos maiores amores da minha vida. Começo com a minha menina grande, a minha Joana, pude desfrutar dela mais do que nos últimos anos e sou muito feliz por isso. O meu pequeno João, um reguila que cresce a olhos vistos, que vi este ano iniciar um caminho que eu iniciei há vinte e seis anos. Não me interessa o jeito que tens, que o tens, quero é que te divirtas e que com esse sentimento consigas apaixonar-te por esta arte da mesma forma que eu. O tempo o dirá, mas que saibas que desfruto tanto ou mais que tu ao ver-te de branco vestido. Para finalizar, a mais nova dos meus três príncipes, a minha Inês. Entraste apenas na vida de todos este ano, mas a mim conquistaste-me no primeiro dia que te vi, ainda te segurava eu a medo. Foste a mais bela e agradável surpresa deste ano e derreto-me de cada vez que sorris.
Cansado, mas com a motivação renovada chego ao novo ano, um ano que espero terminar o que neste iniciei. Que tenha a capacidade de me reinventar, de superar as barreiras que ele me coloque e que me permita estar junto daquelas pessoas que dão sentido à minha vida.
A todas essas pessoas, desejo o melhor para 2018. Sei que nem todas se despedem dum ano amigo, mas que todas entrem neste novo ano com forças para reencontrar um caminho de equilíbrio no qual possam ser felizes.
Venha 2018, venham os novos desafios, venham os grandes momentos, venha um futuro por descobrir.
A todos vocês, aos que já faziam parte da minha vida e aos que nela entraram este ano, um Feliz Ano Novo.

Do vosso amigo,

Jorge Gomes

sábado, 23 de dezembro de 2017

Tempo de Natal

Começo por dizer que detesto o frio, a chuva e o Inverno. Porém, o momento do ano que me mais me aquece a alma é o Natal.
Sei que o calor humano que se sente nestes dias deveria de ser o mesmo ao longo do ano, mas considero que mais vale agora do que não o ser. Vivemos num mundo frenético, cheio de horários e compromissos, que nos consome compulsivamente o nosso tempo. E que precioso que ele é.
Sei que se quisermos, se nos organizarmos, conseguimos ter tempo para o que queremos e para quem queremos, contudo a exigência que nos colocam em cima dos ombros todos os dias leva-nos a um ponto de cansaço que relega a nossa vontade para segundo plano.
Por isso não levo a mal que este mês de Dezembro seja um mês de longos e alegres reencontros. Daquelas amizades que, por vicissitudes da vida, não se vivem tão intensamente como o desejado.
E eu tive um rico mês, vivendo amizades de toda a vida, fortalecendo as mais recentes. E triste por não estar com algumas pessoas que muito me dizem e cujo abraço fraterno aquece-me o espírito.
A todos…
Os meus familiares, desde os meus pais à restante família…
A todos os que pertencem à minha segunda família, o Karate, os de perto, os de longe…
A todos os meus amigos, aqueles que enchem esta palavra de significado…
A todos os meus colegas de trabalho, com os quais passo mais horas que com a minha família…
A todos os meus colegas de curso, que conheci recentemente e que continuo a conhecer nesta nossa aventura…
A todos os meus colegas que por esse mundo fora vão abdicar de estar com os seus, para cuidar dos familiares dos outros…

A todos, sem exceção, desejo um Feliz Natal, com alegria e calor humano.


domingo, 5 de novembro de 2017

Moinho de Vento

Movido pelas monstruosas aragens
Das serras miradouro
De magníficas paisagens
De Fafe é tesouro.


Seus longos braços de madeira
Pela brisa aguardando
Parecendo de brincadeira
Vão pouco a pouco trabalhando

Desafiador de tempestades
Dos cereais escultor
Do moleiro protetor
Tempos que deixam saudades.



Hoje, abandonado no sopé
Numa vida de solidão
Esperas caminhantes a pé
Para que vejam a tua dimensão!


terça-feira, 24 de outubro de 2017

O atrevimento do indecoro

Não, não me vou atrever a falar sobre os incêndios…sinto-me demasiado envergonhado para falar disso, por pertencer a um país que trata com leviandade futebolística e partidária um tema que tira vidas a portugueses iguais a mim.
Depois de acontecer o impensável, aconteceu o impossível (primeiro indecoro). Bem verdade quando se diz que o impossível só o é até aparecer quem o torne possível. E nisso temos os melhores do mundo a fazer acontecer as piores coisas impossíveis. Temos a classe política mais incompetente, mais desumana, mais sem vergonha que possa existir (mas talvez a mereçamos…).
Após o sucedido apenas havia algo que se poderia dizer aos portugueses e às vítimas desaparecidas…“Desculpem”. Ao invés disso assisti, incrédulo, às declarações do Sr. Costa (segundo indecoro). Acredite que muito me custa chamar-lhe senhor, não merece, não é digno sequer de ser apelidado de pessoa. Não é homem para ocupar o lugar que ocupa, pelo discurso, pela inércia, pela falta de humanismo, pela arrogância, pela maneira como escolheu de subir ao poder.
Depois temos a Constança, de uma inconstância descomunal (terceiro indecoro). Fala a pobre mulher que não teve férias. Deixe-me que lhe diga, podia ter ido que não se teria dado pela sua falta.
Temos os do poleiro, que lançam as culpas para cima dos que lá estiveram e para a população, como se não fosse nada com eles (quarto indecoro) …apenas a recuperação fantasma do país se deve a eles.
Temos os que estiveram no poleiro e já não estão, a apontar o dedo como se em nada tivessem contribuído para o estado de calamidade verificado (quinto indecoro).
Temos Portugal no seu melhor, em que a culpa sempre morreu solteira. Esta impunidade que se vive na política simplesmente enoja-me, não há outra palavra que expresse melhor o que sinto.
Depois vem o pior de tudo. Eu dos políticos já tudo espero, já nada me espanta. O que me espanta é muito boa gente vir a poleiro defender o indefensável (sexto indecoro). Quando se devia ser firme e intransigente com todos os responsáveis pelo que aconteceu (que não são apenas deste ano), pelas vidas perdidas, para alguns elas são admissíveis dependendo da cor política que governe. Vêm com paninhos quentes, vêm dizer que são situações inesperadas (para quem é inesperado algo que acontece ano após ano?), que não se podem controlar, etc. Sabem, também me enoja esse tipo de discurso…profundamente.
Depois há as manifestações solidárias para com os bombeiros, com os donativos em bens e dinheiro, no apelo a que todos devíamos ser associados etc. Já refleti muitas vezes a minha opinião sobre os bombeiros, admiro imenso o papel deles, admiro mesmo, eu não o faria. Em pleno século XXI não acho que seja admissível, para uma profissão tão exigente, o voluntariado. Em tempos que se exige profissionalismo máximo na mínima das profissões, esta não pode seguir nas mãos da boa vontade. Tem que se dotar os bombeiros de condições para que possam exercer a sua profissão de forma segura, para eles e para os outros. Seria algo que traria maior responsabilização aos profissionais em causa, mas repito, sendo profissionais estariam em muito melhor posição para o assumir. Ou será que ainda temos os hospitais cheios de freiras a prestar cuidados de enfermagem? Nada contra as senhoras que o fizeram e ajudaram na evolução da profissão, mas os tempos e exigências mudaram.
Para finalizar, temos as árvores que de repente nos lembramos de plantar, em vez de dar brinquedos às crianças e pronto, problema resolvido, nada do que se passou este ano voltará a acontecer…peço desculpa, mas, em primeiro lugar, não são as crianças que têm culpa do sucedido. Em segundo, não contem comigo para ser cúmplice no camuflar da situação.
É a hora de apontar o dedo de vez, de pedir a “cabeça” dos responsáveis, de tomar medidas que realmente mudem o panorama e nos permitam ter segurança no futuro. Brincar ao faz de conta fará com que para o ano estejamos aqui outra vez a falar do mesmo, a pedir mais donativos e associados para os bombeiros e a plantar novas árvores para substituir as que se queimaram de novo. Nem tudo é possível de substituir, nem tudo se resolve com a boa vontade de voluntários e cidadãos. As vidas humanas que se perderam e tudo que representam não voltam.
Na Galiza morreram quatro pessoas, saíram milhares à rua, aqui morreram muitas mais, milhões puseram-se online. Por isso digo, temos o que merecemos.
Temo ser uma mente perturbada, com ideias alucinogénias num mundo equilibrado e são. Talvez esteja sozinho, a falar com os meus botões num estado de muda esquizofrenia. Mas dentro da minha loucura, estou imensamente preocupado pelo mundo onde vivo.



sábado, 21 de outubro de 2017

Para ti...

Vi-te nascer,
Ainda cria inocente
Vi-te crescer,
Mulher resplandecente!

No meu colo andaste
O meu pescoço abraçaste
Na minha mão seguraste
Em mim confiaste!

Foste uma brisa outonal
Nascida no mês das folhas cadentes
Lançaste-me feitiço colossal
Como as encantadoras serpentes!

És prosa do meu pensamento
Poesia do meu sentimento.
És beleza que encandeia o meu olhar
És causa do meu suspirar.

És flor do meu jardim
Que me alegra a visão
Um amor que não tem fim
Sangue do meu coração.

Parabéns querida Joana! Sê feliz, hoje e sempre.
Beijinho,

Do Padrinho

sábado, 14 de outubro de 2017

Cara Bastonária

A Enfermagem vive momentos de grande agitação, com grande mobilização dos seus membros em busca de um caminho de dignidade e valorização profissional.
No meio deste alvoroço surgiram os habituais sindicatos, uns aproveitando a união da classe para bradarem bandeiras, outros colocando-se, a meu ver inexplicavelmente, de lado (não ao lado) desta falange humana e, de forma algo inusual, a Ana Rita Cavaco, nossa Bastonária.
Faço um interregno nas minhas ideias para dizer o que não costumo dizer. Votei na colega nas eleições para Bastonária, digo-o não para bajular quem quer que seja, ao dizer isto apenas aumento a exigência na forma como me representa. E porque fui dos poucos que votei…e porque fi-lo em si? A colega não me conhece de lado nenhum, eu conheço-a apenas agora, depois de dar voz à nossa classe. Que me levou a votar em si? Li as ideias da sua candidatura e pareceu-me ser alguém que não esquecia nenhum enfermeiro, nem os de cá, nem os que estão espalhados pelo mundo fora. Isto no papel, claro, com o exemplo que temos das promessas políticas, o pobre sempre desconfia. Mas acreditei, talvez tenha querido acreditar que viesse a ser verdade. A lembrar-me dos sete anos que trabalhei fora do país, abandonado pela Ordem, tal como os meus demais colegas.
Após atento seguimento das suas intervenções em diversos meios, a prova de fogo chegou no dia “B”. E o que vi, o que todos vimos, foi um Basta nas dúvidas que pudessem haver sobre a Ana Rita Cavaco. A colega é, neste momento, a nossa líder, a nossa principal defensora, é mais uma nas batalhas que a Enfermagem trava atualmente.
A nossa Bastonária, antes dos dias da manifestação, foi alvo de vários ataques, internos e externos. Acusaram-na de ser sindicalista…eu acuso-a de ser mais uma Enfermeira. Mal seria se o papel da nossa representante máxima se limitasse a dizer o que não vai bem…e não o sentisse. Como o sente, simplesmente tinha o dever moral de acompanhar, lado a lado, os milhares que se manifestaram…como o fez.
Dias mais tarde, novos ataques internos desesperados e sem sentido de oportunidade…e aqueles que por si são defendidos saíram em bloco em sua defesa. Finalmente, após anos (eu após nove anos) de uma Ordem desordenada nas suas intenções, temos uma Ordem que luta pelos seus, mesmo por aqueles que insistem em mostrar mal-estar por não estarem no lugar da colega.
Ana Rita Cavaco, parabenizo-a pela postura que tem tido desde que assumiu o cargo, apesar de nem sempre concordar com o modo como terá feito ou dito certas coisas, mas não é a mim que tem que agradar e o meu ponto de vista nem sempre será o mais certo. Contudo há algo que lhe reconheço independentemente dos métodos, luta pela Enfermagem, não pelo cargo. Não sendo dos que defendem que “falem bem ou mal, o que interessa é que falem”, acredito que não podemos ficar calados com receio da reação do resto do mundo. E a Ana Rita Cavaco não tem medo, deu voz ativa e válida à nossa profissão.
Espero que, no dia em que dê o lugar a outro/a, as minhas palavras mantenham esta índole. É um desejo sincero, porque acho que o que fez neste pouco tempo em que assumiu o cargo não merece outro desfecho.
Não deixou de ser Enfermeira para ser Bastonária…ah, cara colega, e de que maneira nós precisávamos duma Bastonária Enfermeira.

Um sentido abraço…pela Enfermagem.