segunda-feira, 9 de julho de 2018

O início...de uma nova caminhada



“Mais importante que o destino, é o caminho percorrido para lá chegar!”
 Talvez seja esta a frase que melhor resume a empreitada que eu e mais vinte e nove colegas iniciamos em Outubro, quando nos candidatamos a ser Enfermeiros Especialistas em Reabilitação.
Passados dez meses de um processo de aprendizagem intensivo, duro e de sacrifícios, estou longe de me sentir Especialista. Nunca considerei que cursos ou cartões dessem direito às designações neles contidos. Acima de tudo, é o dia-a-dia, é a experiência, é o pôr em prática os conhecimentos que nos pode levar ao merecimento de tal designação.
Por isso não me considero especialista, sinto-me, isso sim e ainda antes de iniciar este percurso, enfermeiro de reabilitação. Foi o sentir que o que fazia para ajudar os meus doentes não era suficiente, que podia fazer mais e melhor, que me fez entrar neste desafio.
Sempre o disse e acredito piamente nisso, só evoluímos, seja pessoalmente ou profissionalmente, se sairmos da nossa zona de conforto. O que vem fácil, vai fácil ou não tem valor.
E o que destaco destes meses todos, são as pessoas que conheci, desde os meus colegas, aos professores e orientadores.
A primeira palavra, como não podia deixar de ser, é para vocês meus caros colegas. Companheiros de sacrifícios, de estudo, de trabalhos, de angústias…mas também de risos e sorrisos, de solidariedade, de alegria. Apesar de ter sido voluntário involuntariamente, ser o vosso delegado de turma foi um privilégio. Porque é que digo isto? Tentei conhecer todos, ser um elo de ligação e de apoio para o que precisassem. Independentemente de haver relações mais fortes que outras, de todos levo algo, cresci com cada um de vocês. Parabéns e obrigado.
Sigo para os Professores, destacando a Professora Esperança, o Professor Fernando e a Professora Manuela, que nos orientaram de mais perto, mas nunca esquecendo todos os que nos deram o seu contributo. Pessoas de com grande saber acumulado, mas acessíveis e disponíveis para nos ajudarem.
As próximas palavras vão para todos os meus orientadores de estágio, responsáveis máximos pela minha evolução, que pelo exemplo foram e são modelos que pretendo seguir no meu percurso profissional.
Enf. Nuno e Enf.ª Fernanda (Gaia); Enf. Jorge (Braga); Enf.ª Graça e Enf.ª Ana (Cabeceiras); Enf. Vasco e Enf. Aníbal (Póvoa de Varzim)…estes sim, considero Enfermeiros Especialistas em Reabilitação. Foram fonte de aprendizagem, de reflexão, de conselhos, deram-me motivação para exercer ainda com mais vontade a nossa nobre profissão, encorajando-me a assumir sem receio os desafios que a minha vida profissional me puser à frente. A minha enorme gratidão para todos.
Não esqueço ainda todos os colegas que, apesar de não estarem diretamente na minha orientação, colaboraram nela e fizeram-me sentir membro integrante das equipas por onde passei.
Estas foram as pessoas que acompanharam de perto todo o meu percurso formativo, mas houve outras que não podem ficar sem uma referência.
Os primeiros, teriam que ser sempre eles, os meus pais. Por me apoiarem desde o primeiro momento, pela preocupação e interesse constante, pela compreensão nos momentos de maior impaciência resultantes das diminutas horas de sono, por tudo.
Palavra maior também para todos os meus colegas do trabalho, pela sobrecarga que a minha maior ausência do serviço provocou. O que me levou a dar tudo foi também o não querer que o vosso esforço fosse em vão. Se cheguei a bom porto, a vocês o devo. Isso nunca esquecerei.
Aos meus amigos, a esses, além do obrigado pelo apoio incondicional, as minhas desculpas. Pelas ausências ou pelas presenças com a cabeça noutro lugar.
Sónia Marinho e Márcio Carvalho, este meu percurso coincidiu com a nossa época mais difícil. Ter o apoio dos dois foi fundamental para poder desligar-me o possível do Karate quando assim me foi exigido. Sabendo que tudo correria dentro da normalidade. Sempre AKFAFE.
Gratidão é palavra a que dou muita importância. Devido a ela estou em dívida com todos vocês.
Pode-se pensar que isto é o fim…mas não o sinto assim. Para mim é apenas o começo de uma nova fase. Mudei, mudei a minha maneira de ser, estar e ver a enfermagem. Mais importante que ser especialista, é ser especial, será sempre esse o meu repto em tudo o que faça.
E não tenho dúvidas, as pessoas deste grupo têm tudo para serem especiais…sejam felizes no que fazem e não se esqueçam, mais importante que dar anos à vida…é dar vida aos anos.
Um sentido abraço a todos,
Jorge Gomes




sexta-feira, 8 de junho de 2018

Já passaram 34...




Uma breve pausa para um breve agradecimento.
Um sincero obrigado a todas as pessoas que, das mais diversas formas, me felicitaram pelos meus 34 anos. Um especial para aqueles que estiveram presentes, mas também para todas as mensagens daqueles que estão presentes todos os dias mesmo estando longe.
Um ano mais velho, um ano de real crescimento. Sem dúvida alguma, foi aquele em que mais cresci, pessoal e profissionalmente. Sinto-me hoje, algo diferente de há um ano atrás.
Profissionalmente, encontro-me ainda no maior desafio que me propus até hoje. Um desafio exigente, de quase exaustão, mas que, acredito, está a dar-me as ferramentas (e pensamento) necessárias para ser melhor enfermeiro. Uma aprendizagem da responsabilidade de muitas pessoas, a quem já agradeci, mas fá-lo-ei mais personalizadamente mais à frente.
Pessoalmente, cresci e aprendi com uma das maiores perdas da minha vida. Nem sempre é fácil levantar a cabeça ou seguir em frente, mas há alturas em que não se pode parar. Descobri uma resiliência que desconhecia, mas aprendi que a vida é curta para deixarmos para amanhã o que deve ser feito hoje. Estar com quem devemos, dizer o que sentimos, dar o valor às pessoas enquanto estão connosco. Só assim fará sentido o que se disser depois.
Ambas as situações levaram à maior mudança em mim. A minha visão, não a de ver apenas com os olhos, mas a de ver e sentir quem foi o meu suporte quando mais precisei. Algumas boas surpresas…algumas revelações.
Por isso o meu tempo, aquilo que de mais precioso tenho, passou a ser dado às pessoas que me fazem sentir bem, pretendido e acarinhado. A elas, que sabem quem são, dou o meu mundo.
Para terminar, farei menção particular apenas a uma mensagem que me enviaram. Já fora de horas (nunca o é), quando já me preparava para dormir, chegaram-me as seguintes palavras (apenas um excerto da mensagem):

Como amigo, apenas quero que tenhas sempre em mente que a vida é mais curta do que aquilo que parece, por isso devemos tirar o máximo partido de todos os momentos que nos fazem viver cada dia da melhor forma. Não há homens de ferro, mas há homens sinceros e honestos e que dizem mais quando não falam.
Espero que não te foques apenas em dar o exemplo, já o fazes inconscientemente. Sê tu mesmo e continua a ser quem és.

Um amigo, um rapaz que vi crescer, que se tornou um homem e que neste momento é um exemplo para mim. Pelo coração que tem, pela força que demonstra e pelos princípios pelos quais se rege. Se já ia dormir de coração cheio, permitiste-me adormecer com um sorriso.

Obrigado a todos!


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Muitas certezas...uma decisão cheia de dúvidas




Muito se tem discutido sobre a eutanásia nos últimos dias, temos ouvido e lido diversas opiniões de ambos os lados e todas me merecem o devido respeito. O único senão é que não me parece que seja um tema para tantas certezas, seja de que parte for.
Eu pelo menos não as tenho, consigo arranjar prós e contras para qualquer uma delas.
Já vivi situações que me fariam concordar, como também já passei pelas situações que me fariam pensar o contrário.
Acho que, acima de tudo, temos que contextualizar a eutanásia e contextualizar o país em que estamos.
Primeiro, uma das ideias que me parece muito presente, é que a eutanásia vem para “exterminar” as pessoas em fim de vida, sem perspetivas de cura. Aqui entram em cena os que defendem (e muito, muito bem, tal como eu defendo) os cuidados paliativos. Acredito piamente que com cuidados paliativos de qualidade é possível proporcionar um fim de vida digno a quem vê o seu tempo chegar ao fim devido a doença. Aqui entram em cena os que dizem que há situações que não há assistência que valha a quem está em tal posição de forma a mitigar o seu sofrimento. Não discuto, não sou especialista na área, nem nunca trabalhei num serviço especializado em paliação.
O grande cerne da questão, nesta área, é a tal contextualização do nosso país. Temos um país que permita a todas as pessoas em fim de vida e em sofrimento ter acesso a este tipo de cuidados? Não, não temos. Temos que lutar por isso? Claro que sim, acho fundamental a existência duma rede de cuidados paliativos de qualidade que abranja todo o país, de modo a dar resposta a todos os casos. Nova pergunta, alguma vez iremos chegar a esse ponto? Não gosto de futurologia, penso que não, mas não o posso afirmar.
Contudo temos um problema, até que esse dia seja palpável teremos muitas pessoas a falecer em sofrimento. Infelizmente, imagino que haja muitos doentes a ter uma morte pouco digna por este país fora, seja em situação de doença terminal ou aguda.
Já trabalhei num serviço (fora de Portugal) que não era de paliativos, mas que recebíamos doentes em fim de vida. Alguns casos conseguíamos dar uma resposta adequada, noutros não e quando tentávamos enviar os doentes para um local mais apropriado eram-nos fechadas as portas. Diziam que não havia camas ou não valia a pena, que os poucos recursos que tínhamos eram suficientes…não o eram. Aprendi a lidar com dois tipos de morte, a digna e aquela pela qual espero um dia não passar...reformulo, com esta não consegui aprender a aceitá-la.
Depois temos os outros casos, casos extremos que quem fala em cuidados paliativos parece esquecer que existem. Os tais em que a pessoa decide que não quer viver mais na situação em que se encontra, como são os casos, só como exemplo, das tetraplegias. Aqui é que esbarramos num muro de crenças que, a meu ver, deve-se deitar abaixo. Podem ser até situações em que não haja sofrimento físico...mas todos sabemos que não existe apenas esse. Eu, Jorge, pessoa autónoma, com família, amigos, trabalho etc, digo neste momento que não quereria viver numa condição em que apenas pudesse mexer a minha boca ou os meus olhos. Seria uma mente presa num corpo morto. E são estes casos, acima de tudo, em que acho que apenas quem passa por eles sabe verdadeiramente a agonia em que vive, que deviam de ter o direito a ter outra opção. Porque quem sou eu para dizer que os meios existentes para ajudar um tetraplégico são suficientes para acabar com o sofrimento em que vive? Além que todos sabemos que pessoas nestas situações com os meios dum Christopher Reeve ou dum Stephen Hawking são raras.
Quero deixar aqui a salvaguarda que ninguém com uma depressão amorosa ou algo parecido se inclui nos critérios para a eutanásia. Um dos argumentos que vejo a ser dado a favor é que o número de pedidos de pessoas para morrer é cada vez maior. Calma, muita calma. Se assim fosse, talvez metade das pessoas internadas em serviços de saúde seriam candidatas a tal procedimento. E no fim, quando saem dos internamentos, saem a agradecer por tudo o que foi feito e pela recuperação que tiveram.
Infelizmente, mesmo na presença das melhores condições, como profissional de saúde, tenho que ter a humildade de aceitar que há coisas que estão fora do alcance da ciência. Pelo menos para já. E como considero que não devo cortar a liberdade de quem possa estar em sofrimento, dou um sim, com muitas reservas, à eutanásia.
Finalizo com uma questão, que ainda não vi ninguém responder e que, na minha ótica, é tão importante como o dizer sim…quem seriam os profissionais de saúde a pôr termo à vida das pessoas? Como apenas falo por mim, a minha resposta é “eu não”.

domingo, 27 de maio de 2018

O primeiro ano do resto da tua vida


Querida Inês,

Fez um ano que vieste ao mundo, fez um ano que te conheci sem ainda saber o papel que terias na minha vida.
Eras tão pequena, tão frágil, tão terna, que cada vez que pegava em ti aproximávamo-nos cada vez mais. Tanto, ao ponto de não ter segurado algumas lágrimas no momento em que os teus pais me convidaram para ser teu padrinho.
Tens crescido a olhos vistos, da bebé indefesa estás a tornar-te numa bebé reguila, irrequieta e com esse teu sorriso que encanta toda a gente. E como acho piada a essa tua vontade de falares o que ainda não consegues dizer.
Oficializamos a nossa relação, apesar de ter assumido esse papel a partir do momento em que disse “sim”. Um papel ao qual estou já familiarizado e ao qual irei tentar dar o meu melhor para, acima de tudo, estar presente. É essa a maior e melhor prenda que podemos dar. Tentarei ajudar os teus pais na tua educação, daquela maneira que eu acho que é a única de se educar, pelo exemplo.
Ser padrinho é a experiência que mais desfruto, seja com a Joana, com o João ou, agora, contigo. Tenho três afilhados que me preenchem, que me encantam e que amo acima de tudo. Gostaria de estar com cada um deles todos os dias. Sei que não é possível, ainda mais num ano atípico como este, mas cada momento com eles é aproveitado ao segundo.
Inês, ainda és muito nova para perceberes as palavras que te escrevo, estas e as outras já escritas, mas já entendes tudo o que o meu olhar, a minha voz e o meu toque transmitem quando estou contigo.
Parabéns pelo teu primeiro aniversário!
Beijinho do padrinho


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Assobiar para o lado...amanhã é outro dia


Recentemente,, enfermeiros foram agredidos no Hospital São João quando estavam em funções.
Recentemente uma professora foi agredida quando estava em pleno local de trabalho a exercer as suas funções.
Estes dois casos, recentes e esquecidos, arrisco a dizer mesmo por nós enfermeiros e professores, são exemplo de algo que vai ocorrendo muito por esses hospitais e escolas do país.
Ontem aconteceu aquilo aos jogadores e equipa técnica do Sporting. Não se fala de outra coisa, aqui dentro e aposto por esse mundo fora. Como adepto do desporto, condeno veemente este tipo de atitudes e lamento pelos profissionais envolvidos.
Mas que difere estas três situações? Nas duas primeiras, profissionais exaustos devido a condições laborais muitas vezes precárias, são vítimas de uma sociedade doente, em que impera a lei do quero, posso e mando. No segundo caso, os profissionais, dos mais privilegiados a nível mundial, foram vítimas, em primeiro lugar, duma pessoa doente e instável, em segundo lugar devido a todos nós que seguimos o futebol e fomentamos o culto da guerra.
Este ano a época futebolística foi marcada, de forma mais exacerbada, pela cultura do ódio, desde os principais intervenientes até aos programas diários em que se fala de tudo menos do jogo. E com audiência. Sinceramente, não lhes dou tempo de antena, fui habituado na minha vida desportiva a respeitar o meu adversário da mesma forma que me respeito a mim, sabendo ganhar e perder. O que aconteceu ontem era previsível que acontecesse mais cedo ou mais tarde, fosse qual fosse o clube. Eu que adoro o futebol e o meu Benfica, revejo-me cada vez menos num desporto de jogos sujos de bastidores, em que os principais clubes, poucas dúvidas tenho, estão envolvidos.
Temos uma sociedade com valores invertidos ou adulterados, onde não há rei nem roque, em que se pensa que os interesses individuais (não direitos) estão acima de tudo e todos e qualquer coisa vale para os conseguir atingir. As pessoas querem tudo e por isso vivem insatisfeitas. Querem o que podem ter e o que não podem. Querem até aquilo que não querem, apenas porque outros o têm. Queremos, nos vintes, ter aquilo que os nossos pais conseguiram ao longo de uma vida de trabalho e sacrifício.
A mim preocupa-me mais o que se passa diariamente com o comum dos mortais, nos locais em que se formam as crianças que vão ser os adultos de amanhã. Pais baterem num professor é das situações mais graves que pode acontecer…pois vai fomentar que mais tarde se repita o que aconteceu ontem.
Percebo o impacto do que aconteceu, é o fenómeno do futebol. Temos que ter noção que esta lamentável situação não é a desgraça do país, é consequência do desgraçado que ele está. Está na hora de deixarmos de assobiar para o lado, como se nada tivéssemos a ver com isto.
“Eduquem-se as crianças e não será preciso castigar os homens” - Pitágoras

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Criminalização do abandono hospitalar do idoso...uma questão pouco linear.





Recentemente foi alvo de discussão no Parlamento um projeto de lei sobre crimes contra os idosos, entre os quais o abandono. Quando se fala em abandono, falamos da triste realidade do abandono hospitalar, em que as pessoas são “entregues” nas instituições, delegando-se no Estado a decisão sobre o futuro delas.
A proposta foi, talvez de forma surpreendente, chumbada. A meu ver é uma decisão aceitável e creio que fundamento a minha opinião de forma racional e não sentimental, com sentido de justiça e ético.
À primeira vista, se vivêssemos num mundo lógico, seria o primeiro a bradar aos céus o chumbo deste projeto de lei. Claro que sou contra o abandono dos idosos, claro que acho que deve haver lei a proteger as pessoas que estão em situações de maior fragilidade. Agora, antes de se criminalizar o que quer que seja, tem que se definir muito bem o que estamos a falar.
O que se considera por abandono? Quando se considera abandono? Os motivos que o suscitaram? Estas questões e muitas outras podem e devem ser colocadas para se tentar perceber um pouco a magnitude da questão. Isso e colocarmo-nos no lugar dos outros.
Como profissional de saúde, considero a criminalização do abandono um pau de dois bicos. Pode, hipoteticamente, levar a uma menor taxa de abandono de idosos. Porém, levará de certeza a uma desresponsabilização por parte dos profissionais quanto ao assegurar uma solução segura para o idoso, passando a pasta para as famílias, seja intra ou extra hospitalar. Prefiro ter problemas e andar até à última para arranjar uma solução, que ter na mão o poder de dizer à família “resolvam, senão vão presos”.
O abandono, atualmente, dá-se em situações em que o idoso se torna mais dependente e começa a interferir nas rotinas da família (em contexto domiciliário) ou quando um idoso que era independente é internado e se torna dependente, obrigando a uma readaptação das famílias. Seja de que forma for, temos a dependência como origem aparente do abandono, mas, a meu ver, é a alteração da estrutura familiar a causa principal.
E de que têm medo as famílias? Que não tinham há anos atrás em que se cuidava dos mais velhos. Para explicar isto aprofundadamente, é preciso uma discussão alargada do problema.
Em primeiro lugar, a mudança do papel da mulher na sociedade, antes cuidadora de filhos, pais e sogros, hoje trabalhadora com todo o direito. Fato que não interfere apenas com a educação dos mais novos, mas também com outras importantes implicações.
Em segundo, a crise financeira e as exigências sociais aumentadas na educação dos mais novos e mesmo no cuidar dos mais velhos. Hoje em dia, por várias razões, poucas são as pessoas que se podem dar ao luxo de se despedirem ou pedirem licença sem vencimento para ficarem a cuidar de outros. Como dizer a um casal, com salário mínimo e um filho, que tem a obrigação de cuidar dum idoso senão vão presos ou pagam multa?
Em terceiro, como obrigar alguém a cuidar dum pai ou mãe que nunca o foram durante toda a vida? Nem toda a gente teve bons pais para se verem obrigados a serem “bons” filhos.
Em quarto, quinto, sexto e podíamos seguir, não faltarão “ses” para colocar em causa o que nos pode parecer tão evidente.
Claro que há respostas a nível social que atenuam o efeito duma situação destas no seio familiar. Algumas reais, algumas imaginárias, algumas demoradas, algumas que nunca acontecem…é aqui que eu considero haver muito caminho para desbravar, numa sociedade gradualmente mais envelhecida. Faltam respostas rápidas, eficazes e palpáveis, que garantam segurança e conforto, quer aos idosos quer às suas famílias.
O que eu acho que deve haver é uma reeducação sobre as responsabilidades quer das equipas interdisciplinares, quer da família. Reforçar que é o trabalho conjunto das duas que permitirá encontrar a melhor solução para a pessoa dependente.
Com tudo o que disse não nego a existência do real abandono dos idosos. Existe, é verídico. Contudo, antes de se proceder à sua criminalização, é necessário criar condições para que se possa separar o trigo do joio. Eliminando todos os “ses”, de modo a não mandarmos para o “corredor da morte vítimas inocentes”.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Obrigado Sensei...até um dia

Aquelas duas chamadas por atender puseram-me o coração em sobressalto. Pressenti o que ouviria do outro lado, pressenti que o pior tinha acontecido. Encostei-me, sem forças, à parede, a ouvir a pior notícia que um amigo me deu até hoje…“Jorge, o Sensei…”…mas agradeço que tenhas sido tu meu caro, ambos percebemos o alcance do que me disseste.
A chuva lá fora acompanhava as lágrimas que me caíam dos olhos. O chão pareceu tremer…ou talvez tenham sido as minhas pernas. A voz tiritava, originada pelo frio do vazio que se criou de repente em mim.
Não caí ainda na realidade, custa-me acreditar que seja verdade. Sempre tive esperança que se alguém era capaz de sair duma situação destas era o Sensei.
Choro ao ver partir a pessoa que, a seguir aos meus pais, mais influência teve no meu crescimento enquanto homem. Não consigo descrever a importância que o Sensei Marinho teve e tem na minha vida, apenas posso dizer que foi a pessoa a quem o meu pai me confiou para guiar-me no caminho do Karate e isso diz muito. Foi Sensei, Mestre, pai…e creio que o meu não me levará a mal por dizer isto.
A mim tal como a muitos outros, formou-nos com mão dura, com disciplina e trabalho intenso, ajudou a vincar a nossa personalidade dum forte carácter. Conquistar a sua confiança, ser merecedor dela, foi talvez a minha maior conquista até hoje.
Por entre a névoa que me nubla o olhar, escapa-me um sorriso ao lembrar-me dos muitos momentos que passamos juntos. Muitos treinos, muitos jantares, muitas viagens, muitos risos e sorrisos.
O kimono esta semana pesou como nunca, aquela nossa casa, estando cheia parecia vazia. Este golpe deitou-nos ao chão, doeu e vai doer. Mas foi isso que o Sensei Marinho nos ensinou toda a vida, não ficarmos no chão depois da queda.
Continuaremos o trabalho que ele iniciou com mais força, com mais vontade, ainda com mais dedicação. Não haverá ninguém capaz de substituí-lo, o legado é enorme, mas somos uma grande família, forte, unida e juntos seremos capazes honrar a nossa História.
A dor é grande, a perda irreparável, apertam já as saudades dos tempos futuros, mas o Sensei Marinho viverá em cada um de nós. Cada vez que um de nós vestir o Gi, cada vez que um de nós pisar um tatami, carregará em si todos os ensinamentos do nosso Mestre.
Obrigado Sensei, obrigado por tudo.
Do seu discípulo
Jorge Gomes
OSS